Filmes

Spider-Man: Brand New Day deixa Tom Holland numa Nova Iorque que esqueceu o seu nome

Martha O'Hara

Uma figura de vermelho e azul pende entre duas torres de vidro, recortada contra um sol baixo, enquanto lá em baixo um segundo corpo de preto mate se solta de uma cornija para o vazio. O plano é pura altura: pele espelhada, uma cidade achatada até se tornar desfiladeiro, a luz a partir-se em mil janelas. Esta única composição é o primeiro argumento que Destin Daniel Cretton apresenta sobre onde vive agora este Homem-Aranha, uma Nova Iorque mais fria e mais vertical do que aquela que a saga deixou para trás.

A situação por baixo do espectáculo é mais estranha do que o balanço. Peter Parker atravessa uma cidade que já não sabe que ele existe. As pessoas que salvou, os amigos que amou, o nome que carregava: tudo foi apagado da memória colectiva, e ele protege uma Nova Iorque que não o pode agradecer porque não consegue situá-lo. O filme abre nesse apagamento em vez de se apressar a desfazê-lo, deixando o anonimato definir a temperatura de cada plano: um herói filmado de costas, de cima, no reflexo da janela de um desconhecido.

YouTube video

Tom Holland sustenta esse vazio como o design de produção sustenta a luz: com cuidado e com um peso novo. O elenco à sua volta funciona como uma tese sobre aquilo que o filme quer ser. Zendaya regressa como Michelle «MJ» Jones-Watson a uma relação que a perda de memória reescreveu em silêncio, e o Ned Leeds de Jacob Batalon volta a uma amizade que, para um dos dois, nunca aconteceu. O Bruce Banner de Mark Ruffalo puxa o filme para a engrenagem maior do universo partilhado do estúdio; o Frank Castle de Jon Bernthal traz-no de volta à brutalidade ao nível da rua. O Mac Gargan de Michael Mando surge por fim como Escorpião após anos de insinuações, e Tramell Tillman entra como Bill Metzger. Sadie Sink aparece num papel que a produção manteve deliberadamente na sombra.

Cretton chega ao material por um ângulo invulgar. É o cineasta que puxou o molde de origens do estúdio para algo mais sereno e mais físico com Shang-Chi, filmando os corpos em movimento como coreografia e não como colisão, e esse instinto nota-se no modo como enquadra a acção. O balanço entre arranha-céus é composto, não apenas executado: longas linhas em descida, o sol usado como elemento estrutural, a verticalidade da cidade tratada como assunto em si. É o trabalho de um realizador mais interessado em como uma queda parece do que em quão alto soa ao aterrar. A paleta também mudou: menos da cor primária saturada e brincalhona que definia as aventuras anteriores da personagem, mais aço, vidro e crepúsculo magoado, uma cidade fotografada como clima e não como recreio.

A ameaça constrói-se sobre uma ausência que a própria câmara impõe. O antagonista é descrito como um poder que ninguém consegue ver, e o trailer mantém essa ideia, registando o vilão pelo dano e pela reacção antes que por um rosto. Em paralelo corre o horror mais íntimo que a premissa planta no próprio Parker: uma transformação das suas capacidades que o marketing apresenta como potencialmente fora de controlo. A imagem de um herói que já não pode confiar no próprio corpo é o verdadeiro engodo, mais do que qualquer desfile de vilões.

Nada disto garante que o filme sustente o peso a que aspira. Uma premissa que apaga o protagonista do mundo arrisca também apagar a conta emocional que três filmes anteriores ergueram, e um esquecimento só dói se ao público for pedido recordar o que as personagens não podem, um equilíbrio fácil de enunciar e difícil de manter num tentpole. A presença de Ruffalo reacende a pergunta de sempre: isto é uma história do Homem-Aranha ou mais uma peça de andaime para um crossover maior? E a moldura do «vilão invisível» pode ler-se tanto como contenção genuína como uma revelação que o estúdio guarda para o fim de semana de estreia. O trailer vende atmosfera com mestria; se o filme se compromete com essa melancolia ou vira para a manutenção da franquia é precisamente o que ainda não mostrou.

O elenco creditado aponta ao mesmo tempo para o íntimo e para o descomunal. Ao lado de Holland, Zendaya, Batalon, Bernthal, Ruffalo, Mando, Tillman e Sink, a produção carrega todo o respaldo institucional da saga: Cretton realiza para a Columbia Pictures e a Marvel Studios em associação com a Pascal Pictures, com a Sony Pictures Releasing na distribuição. A estreia do trailer reuniu um número recorde de visualizações logo no primeiro dia, um sinal comercial de que o apetite pela personagem não arrefeceu, quaisquer que sejam os riscos criativos de a reiniciar.

Para um filme sobre um homem que a cidade esqueceu, o lançamento é ostensivamente global e quase simultâneo. Spider-Man: Brand New Day chega aos cinemas dos Estados Unidos a 31 de julho e às salas portuguesas dentro dessa mesma janela do final de julho, com a estreia mundial distribuída entre os dias 29 e 31 do mês consoante o mercado. Depois de uma fase em que a personagem ficou presa na contabilidade do multiverso, a proposta agora é mais despojada e mais visual: um herói sozinho numa cidade que não conhece o seu nome, filmado como um homem que cai através do vidro.

Elenco

Etiquetas: , , , , ,

Discussão

Existem 0 comentários.