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Patrick Brammall, o ator que pôs a sua própria infertilidade no centro de uma comédia romântica irrepreensível

Penelope H. Fritz
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Patrick Brammall
Patrick Brammall
Photo via The Movie Database (TMDB)
Nascimento30 de março de 1976
Canberra, Australia
OcupaçãoAtor
Conhecido porOperação Overlord, O Diabo Veste Prada 2, O Outro Lado do Sexo
Prémios2 AACTA Award for Best Performance in a Television Comedy · Prémio Satellite · AACTA Award for Best Narrative Comedy Series

Durante a maior parte da sua vida profissional, Patrick Brammall foi uma das pessoas mais engraçadas em salas onde o resto do mundo nunca entrou. Os espectadores australianos conhecem-no como membro de uma família espetacularmente infeliz no Natal, como o parteiro que não conseguia parar de falar e como o sargento da polícia de uma pequena cidade cujos vizinhos mortos saem das campas. Os espectadores de outros países foram-no descobrindo mais tarde, aos poucos: o marido que está sempre fora a escalar numa série de terror norte-americana, o homem simpático com quem Anne Hathaway vai para casa entre crises de moda. Este mês, os fragmentos juntaram-se finalmente numa imagem única. Brammall protagoniza um thriller de seis episódios da Apple TV, no papel de um pai devastado pela dor, e acaba de concluir a comédia romântica que transformou o facto mais íntimo da sua vida no centro da história. Os dois trabalhos exigem-lhe o mesmo, algo que tem feito desde sempre: pegar numa situação que devia ser insuportável e perceber, com precisão, o que faz uma pessoa a seguir.

A situação insuportável surgiu primeiro, logo à nascença. Brammall nasceu em Canberra com síndrome do abdómen em ameixa, uma doença congénita rara que afeta os músculos abdominais e as vias urinárias. Anos mais tarde, contou ao The Sydney Morning Herald que os médicos não esperavam que sobrevivesse mais do que alguns meses. Foi submetido a várias operações e passou grande parte da primeira década de vida entre o hospital e casa. Cresceu na zona sul da cidade, frequentou a escola primária St Thomas the Apostle, em Kambah, e depois o Marist College Canberra. A doença também o deixou infértil, um facto que acabaria por deixar de tratar como algo privado e passar a usar como matéria-prima.

Quando concluiu o curso no Victorian College of the Arts, em Melbourne, em 2001, o rapaz nascido em Canberra a 30 de março de 1976 já tinha decidido ser ator. A primeira oportunidade a sério surgiu três anos depois, com The Alice, um telefilme passado em Alice Springs que teve sucesso suficiente para dar origem a uma série semanal em 2005. A série não durou muito, mas deu-lhe trabalho regular no ecrã, no papel de Matt Marione, e foi durante as filmagens que conheceu a primeira mulher, Samantha Nield, que trabalhava na equipa. Casaram-se em 2013 e divorciaram-se até 2017. Seguiu-se a aprendizagem habitual de um ator australiano de televisão: um papel recorrente em Home and Away, o protagonismo no drama de 2008 Canal Road, participações em episódios isolados de All Saints, Rush e East West 101, e teatro pelo meio.

Dois trabalhos desse período mostram a versatilidade que foi construindo discretamente. No telefilme de 2010 Hawke, interpretou o político trabalhista Kim Beazley e, na minissérie de 2013 Power Games: The Packer–Murdoch Story, deu vida a Rupert Murdoch. Interpretar figuras poderosas ainda vivas é, sobretudo, um teste de contenção, e ele passou-o sem fazer grande alarido. No cinema, foi Tim, o irmão do aspirante a super-herói de Ryan Kwanten, em Griff the Invisible. Por outras palavras, era muito mais conhecido pelos diretores de casting do que pelo público.

Foi na comédia que o público o descobriu. Em 2012, interpretou Sean Moody em A Moody Christmas, a série da ABC criada por Trent O’Donnell e Phil Lloyd sobre os desastrosos dias de Natal de uma família ao longo de seis anos, e ganhou o prémio AACTA para Melhor Interpretação numa Comédia de Televisão. Regressou na sequela, The Moodys, e escreveu um dos episódios, que lhe valeu uma nomeação da Australian Writers’ Guild. Nesse mesmo período, participou na comédia sobrenatural The Strange Calls, no papel de um sargento da polícia de uma pequena cidade, no programa de sketches The Elegant Gentleman’s Guide to Knife Fighting e em Upper Middle Bogan, onde interpretou Danny Bright. Em 2014, juntou-se à série da Network Ten Offspring como Leo Taylor, um parteiro, e manteve-se no elenco até 2016.

A mais modesta dessas comédias acabou por ser a mais útil. No Activity, uma comédia sobre dois detetives que matam o tempo dentro de um carro durante uma operação de vigilância, foi a primeira série original encomendada pelo serviço de streaming Stan, em 2015, e a sua interpretação de Hendy valeu-lhe um segundo prémio AACTA de comédia. O formato atravessou fronteiras. Quando a CBS All Access criou uma versão norte-americana em 2017, Brammall desenvolveu-a com o criador da série, Trent O’Donnell, e sentou-se no lugar do passageiro como o detetive Nick Cullen, ao lado de Tim Meadows. Will Ferrell e Adam McKay estiveram entre os produtores executivos. A série teve quatro temporadas, a última delas de animação. Para um ator australiano, era uma nova forma de ganhar terreno: um trabalho na indústria norte-americana que ajudara a construir, em vez de um papel conseguido à custa de audições. Seguiram-se participações em New Girl e Life in Pieces e, em 2021, um papel regular na sitcom da ABC Call Your Mother, como um terapeuta que aluga um quarto à mãe intrometida de Kyra Sedgwick. A série foi cancelada ao fim de uma temporada. Entretanto, os espectadores mais novos conhecem-lhe a voz sem conhecerem o rosto: dá voz ao tio Radley, irmão de Bandit, em Bluey.

O drama foi avançando em paralelo. Em Glitch, a série sobrenatural da ABC sobre os mortos que regressam, em perfeita saúde e sem memória, a uma cidade rural de Victoria, interpretou durante três temporadas o sargento James Hayes, o polícia local que encontra entre eles a mulher que perdeu. A primeira temporada ganhou o prémio AACTA de melhor série dramática, e a Netflix levou a série a espectadores de todo o mundo. A partir de 2019, interpretou também Andy Bouchard, o marido da psicóloga forense de Katja Herbers, na série Evil, de Robert e Michelle King: um guia de escalada profissional que está quase sempre noutro sítio. O papel recorrente manteve-o presente nas salas de estar norte-americanas até ao fim da série, em 2024. No cinema, continuou a trabalhar com regularidade, mas em papéis secundários: a comédia de conjunto de Josh Lawson The Little Death, a comédia de Hollywood Fun Mom Dinner e o filme de terror de guerra Overlord.

O papel no ecrã que mais claramente antecipou o que está a fazer agora foi Ruben Guthrie, o filme de Brendan Cowell, de 2015, baseado na sua própria peça. Brammall interpretou a personagem-título, um executivo da publicidade que vive de festa em festa e cuja noiva o deixa depois de um acidente provocado pelo álcool. Para a reconquistar, promete passar um ano sem beber. O papel exigia-lhe que interpretasse a dependência a partir de dentro, sem se esconder atrás de uma piada. Uma década depois, Cowell é o homem que se senta do outro lado da mesa em Last Seen.

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Depois chegou o projeto que reorganizou tudo. Colin from Accounts, que criou, escreveu e protagoniza ao lado da mulher, a atriz Harriet Dyer, estreou no serviço de streaming australiano Binge em dezembro de 2022. A premissa parte de um acidente de automóvel: Ashley, a personagem de Dyer, estudante de Medicina, mostra os seios a um condutor que passa, este atropela um cão e Gordon, o personagem de Brammall, dono de um bar e produtor de cerveja artesanal, acaba a partilhar a guarda do animal ferido com a mulher que o distraiu. A forma como a série desenvolveu essa ideia foi invulgarmente precisa. O interesse pelos corpos, pelas cicatrizes e pela questão de saber se o casal poderia ou deveria ter filhos não surgiu do nada. Brammall é infértil devido à doença que teve em criança e ele e Dyer já disseram que essa experiência influenciou diretamente a escrita. As duas primeiras temporadas receberam ambas a pontuação máxima no Rotten Tomatoes, a primeira ganhou o prémio AACTA de melhor série de comédia narrativa e, a partir de novembro de 2023, a Paramount+ levou a série ao público norte-americano. Nos Satellite Awards que distinguiram a televisão de 2024, ganhou o prémio de melhor ator numa série de comédia ou musical, à frente de Adam Brody, Nathan Fielder e Seth Rogen; em 2025, foi nomeado para um Silver Logie.

A projeção internacional do último ano trouxe consigo uma receção mais incómoda. Em The Devil Wears Prada 2, estreado em maio e um dos maiores êxitos de 2026, com quase 700 milhões de dólares de receita nas bilheteiras mundiais, interpreta Peter, um empreiteiro e investidor imobiliário que Andy Sachs conhece quando visita apartamentos num prédio que ele acabou de remodelar. Para alguns espectadores, foi um alívio depois do namorado tão debatido do primeiro filme. Outros foram mais contundentes. A Slate publicou um artigo cujo título afirmava que, entre as pessoas bonitas do filme, uma «se destaca», e a Cosmopolitan chamou a Peter «unidimensional». Dyer respondeu no Instagram que «a montagem é brutal» e que as cenas por trás das fotografias promocionais tinham sido cortadas; Brammall confirmou que a sua participação foi reduzida e descreveu como surreal a rodagem, feita sob a atenção constante dos paparazzi. A crítica não percebe a função do papel. Peter é um recurso estrutural, o homem sensato que permite ao filme manter o foco em Miranda e Andy, e é o tipo de papel que dá a um ator um ano para arriscar mais noutros projetos. Visto à luz dos seus próprios trabalhos, parece menos uma viragem na carreira do que uma apresentação no momento certo: o maior público que alguma vez teve chegou poucos meses antes das duas séries que realmente levam o seu nome.

Last Seen, que estreou na Apple TV a 9 de setembro, é a primeira dessas séries a colocar todo o seu peso dramático no centro da ação. Adaptada por Kris Mrksa a partir do romance The Dispatcher, de Ryan David Jahn, e realizada por Christian Schwochow, a série de seis episódios transfere a história do Midwest norte-americano para a costa de Victoria. Brammall interpreta Ian Ridley, um antigo polícia que se tornou operador de chamadas de emergência e bebe para sobreviver ao desaparecimento da filha de três anos, ocorrido onze anos antes, até que uma chamada o convence de que ela ainda pode estar viva. Brendan Cowell interpreta Henry Reid, um fundamentalista recluso, e Maxine Peake é a mulher deste. É a primeira série da Apple TV a ser produzida e filmada inteiramente na Austrália, com rodagem em zonas regionais de Victoria no início de 2025. Brammall admitiu que a escolha do elenco o deixou inquieto. «Quando fui escolhido, pensei: fantástico, incrível, que papelão», disse à ABC News. «Mas cinco por cento de mim dizia: “Acho que se enganaram”.» Na sua opinião, a dúvida é necessária, porque «é preciso pôr tudo em jogo sempre que encarnamos uma personagem».

As críticas vieram, na sua maioria, confirmar que a aposta valeu a pena. Luke Buckmaster deu cinco estrelas à série no The Guardian e chamou-lhe «televisão empolgante»; o Rotten Tomatoes regista 86 por cento de críticas favoráveis, e o consenso da crítica elogia a interpretação de Brammall por levar a série «a outro patamar». As opiniões mais céticas, entre elas a do The Hollywood Reporter, contestaram os artifícios do enredo, não o homem no centro da história. Brammall disse ao The A.V. Club que nunca tinha feito nada parecido, «nem nada desta dimensão».

O final de Colin from Accounts coincidiu com tudo isto. A terceira e última temporada estreou na Binge, na Austrália, a 27 de julho e chegou à Paramount+ nos Estados Unidos a 10 de setembro, no dia seguinte à estreia de Last Seen. Brammall e Dyer escreveram-na enquanto ele filmava a série da Apple, e ele apresentou a decisão de terminar como uma questão de concluir a história devidamente. A série sempre perguntou se Gordon e Ashley aceitariam o caos que os juntou e, nas palavras de Brammall, «queríamos responder de uma forma realmente gratificante e interessante e, ao mesmo tempo, respeitar o nosso público».

A história pessoal corre por baixo do trabalho, sem nunca se separar totalmente dele. Brammall e Dyer foram apontados pela primeira vez como casal em 2017 e casaram-se em março de 2021, cinco dias depois de ficarem noivos. Adotaram a primeira filha em setembro de 2021 e a segunda em fevereiro de 2025. Nesse mesmo ano, participou na edição australiana de Who Do You Think You Are?, na SBS, que confirmou a existência de um antepassado asiático, há muito esquecido, do lado materno. Era um rumor de família de que a mãe e o tio tinham tido conhecimento parcial, desde que, na escola, os colegas os provocavam por parecerem asiáticos. «Quando descobri a verdade, tive de pensar na razão pela qual essa informação se perdeu», afirmou mais tarde, relacionando a descoberta com a sua própria família adotiva e dizendo que gostava de haver «um eco disso na minha própria família».

O que vem a seguir permanece em aberto de uma forma invulgar. Com Colin from Accounts concluída, a parceria com Dyer está livre para dar origem a algo novo, e Brammall prometeu que «haverá sempre humor naquilo que fazemos». Last Seen mostrou que consegue protagonizar sozinho um thriller de prestígio, e The Devil Wears Prada 2 pôs o seu rosto diante de mais pessoas do que três décadas de televisão australiana conseguiram. O bebé que, segundo os médicos, não viveria mais do que alguns meses fez cinquenta anos este ano e, pela primeira vez, a questão já não é saber se a indústria lhe dará espaço, mas em que salas decidirá entrar.

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