Críticas

A Vida de Pi prova que a paciência de Ang Lee compensa quando o mar chega

A adaptação de 2012 do romance de Yann Martel faz da fé o verdadeiro náufrago.
Martha O'Hara
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Um bote salva-vidas à deriva no Pacífico, um adolescente e um tigre-de-bengala chamado Richard Parker. É a imagem central de A Vida de Pi, de Ang Lee, e é em torno dela que o filme organiza tudo o resto: a fé, o medo, a sobrevivência e a dúvida sobre o que realmente aconteceu.

Lee adapta o romance de Yann Martel, vencedor do Man Booker Prize, a partir de um guião de David Magee. Piscine Molitor «Pi» Patel, interpretado por Suraj Sharma na fase dos 16 anos, é filho de um tratador de um jardim zoológico em Pondicherry. Quando um naufrágio o deixa à deriva no Pacífico, passa a partilhar o bote com uma hiena, uma zebra, um orangotango e o tigre. No romance, a travessia dura 227 dias e é o centro de gravidade da história, mas o filme não começa aí.

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Começa, como descreve o The Guardian, com uma história dentro de uma história dentro de uma história. Um autor canadiano sem nome (Rafe Spall), que o jornal presume ser o próprio Yann Martel, ouve dizer que há em Montreal um homem com um relato capaz de fazer qualquer pessoa acreditar em Deus. Esse homem é o Pi adulto, interpretado por Irrfan Khan, professor de filosofia, que conta a sua vida desde a infância em Pondicherry, o enclave francês que só foi cedido à Índia em 1954. O jornal britânico faz ainda uma observação que ajuda a perceber o tom: as duas personagens centrais receberam o nome por acidente cómico. Piscine vem da piscina Molitor, em Paris, de que um tio gostava, e foi trocado pela letra grega depois de os colegas da escola fazerem troça do nome. No romance, o tigre herdou o nome Richard Parker por um erro de registo que o trocou pelo do homem que o capturou. Estas duas trapalhadas de batismo pedem um sorriso logo à partida, antes de o filme exigir qualquer outra coisa ao espectador.

O que mais se discute é o aspeto visual, e com razão. O Film Comment lembra que a abertura parece um livro pop-up de maravilhas zoológicas, com girafas, macacos, flamingos cor-de-rosa e uma preguiça pendurada numa árvore. O The Guardian fala de um 3D alucinatório e de um tom que sugere «Robinson Crusoé reescrito por Laurence Sterne»; dos animais e aves ao sol no início até aos peixes e objetos náuticos a cintilar debaixo de água nos créditos finais, o jornal vê um filme com sentido do misterioso e do mágico. Já o The Movie Elite, que chegou desconfiado, rendeu-se ao naufrágio do navio e às cenas entre Pi e Richard Parker no meio do Pacífico. O crítico conta que foi ver o tigre à procura de qualquer sinal de falsificação e não encontrou nenhum. O Film Comment, apesar das reservas, admite que, graças a um 3D abundante e imaginativo, este é o filme visualmente mais esplêndido da carreira de Lee e o mais divertido em mais de uma década. As reservas ficam para mais adiante.

A fé é o assunto de fundo. Segundo o The Guardian, o filme trata com humor respeitoso a viagem espiritual do rapaz, que rejeita o racionalismo do pai, Santosh (Adil Hussain), e cria o seu próprio caminho; Tabu, no papel da mãe, Gita, completa a família. No romance, Pi é criado como hindu e, aos catorze anos, investiga o cristianismo e o islão e decide seguir os três, para desgosto dos pais. O Simbasible, cujo autor se declara ateu ou agnóstico, achou esse tratamento da religião fascinante e aponta a ideia de que as histórias ficam melhores com um elemento espiritual como uma das razões da força do filme. Concordo que é a parte mais interessante, e é por ela que a obra vai além da aventura de sobrevivência: a travessia torna-se também uma discussão sobre a forma como contamos o que vivemos.

Sharma tem a tarefa ingrata de carregar quase sozinho a metade marítima, contracenando com um tigre que é obra de efeitos digitais. O Simbasible considera-o bom, embora admita que a interpretação não é de tirar o fôlego, e diz esperar mais profundidade da própria personagem, mais simples do que a história pedia. É uma leitura justa: o interesse está menos na complexidade de Pi do que na relação com o animal. O mesmo texto elogia o facto de os bichos serem sempre bichos, nunca demasiado humanizados, e isso preserva a ameaça do tigre. Khan, como o Pi adulto, ocupa a moldura narrativa: o homem que olha para trás e conta a história a um escritor.

A própria carreira de Lee ajuda a situar o filme. O Guardian lembra que o realizador nascido em Taiwan saiu da trilogia sobre famílias chinesas que lhe deu nome para a Inglaterra de Jane Austen (Razão e Sensibilidade) e para a América de Nixon (The Ice Storm), de um filme de artes marciais (O Tigre e o Dragão) para um thriller de espionagem passado na Xangai em guerra e para um western sobre uma relação entre dois homens (O Segredo de Brokeback Mountain). Muda de estilo de filme para filme, sem as obsessões de autor que outrora se exigiam, mas com o olho exigente para a imagem que o jornal lhe reconhece. Em A Vida de Pi, esse olho encontra o 3D, e o Guardian não hesita em chamar magnífico ao resultado.

Os reparos, porém, são reais. O The Movie Elite afirma que, nos primeiros quarenta minutos, as suas dúvidas quase se confirmaram: os atores são envolventes, mas a narrativa não vai a lado nenhum, e o crítico acha que a apresentação do protagonista não precisava de tanto tempo. Só depois do naufrágio o filme arranca. O Film Comment é mais severo e diz que a adaptação é tão inofensiva que custa explicar por que deixa um sabor amargo: Lee não abandona o apetite evidente pelo Óscar nem o tato do costume perante material de «qualidade». O Simbasible, por sua vez, reconhece que o filme chega a flertar com o sentimentalismo antes de Lee encontrar o equilíbrio entre coração e realidade. As duas versões da história, uma com animais e outra sem eles, funcionam melhor como pergunta final do que como solução de guião: o Simbasible considera o desfecho profundo e emocionalmente compensador, e é nessa chave que rende mais.

A receção foi à altura da ambição. Roger Ebert, na sua crítica de novembro de 2012, chamou ao filme «uma conquista milagrosa de narrativa e um marco de mestria visual». O Simbasible regista que as bilheteiras ultrapassaram os 600 milhões de dólares, que houve onze nomeações para os Óscares e que Lee conquistou o seu segundo prémio de realização. O Rotten Tomatoes marca 86% de aprovação.

No fim, o filme pede ao espectador que escolha entre duas versões da mesma história, uma com animais e outra sem eles. O arranque arrastado e a sede de prémios, que Lee não disfarça, são defeitos reais, e o The Movie Elite e o Film Comment acertam ao apontá-los. Mesmo assim, o bote à deriva e a convivência com Richard Parker sustentam o filme, e a pergunta sobre qual das duas versões preferimos acreditar é o que o Simbasible chama, com razão, de profundo e emocionalmente compensador.

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Fotos: The Movie Database (TMDB)

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