Críticas

Eu Vi o Brilho da TV é desigual, mas retrata como poucos a solidão de quem ama uma série

Jane Schoenbrun, 2024: uma fábula noturna em que a ficção se torna mais verdadeira do que a vida.
Martha O'Hara
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Em 1996, Owen (Justice Smith) e Maddy (Jack Haven) são dois adolescentes isolados que se aproximam por causa de um programa de televisão, The Pink Opaque. Owen só o vê às escondidas, em casa de Maddy, porque passa tarde da noite, depois da hora de deitar, e o pai não aprova. Ela empresta-lhe cassetes dos episódios que ele perde. A partir deste ritual, Jane Schoenbrun construiu Eu Vi o Brilho da TV, um drama de terror psicológico passado no subúrbio dos finais dos anos 90, sobre identidade e sobre o que se perde quando alguém não consegue dizer quem é.

No programa, duas adolescentes, Isabel e Tara, usam uma ligação psíquica para combater Mr. Melancholy, um vilão capaz de distorcer o tempo e a realidade. Maddy descreve-o como uma série tecnicamente infantil, mas de mitologia densa demais para crianças. Diz também que The Pink Opaque lhe parece mais real do que a sua própria vida. Dita por uma adolescente, a frase podia passar por exagero. O filme leva-a à letra: a ficção como único sítio onde alguém se reconhece é aqui o centro da dor.

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O filme é mais forte quando se limita a observar os dois diante do ecrã. Smith e Haven constroem uma solidão partilhada sem a sublinhar. A cena em que Maddy chora sem explicação durante um episódio, dois anos depois, é o ponto mais alto: ela decidiu fugir e espera que Owen a acompanhe. Ele não consegue. Smith faz da cobardia silenciosa de Owen o motor emocional da história, e Haven dá a Maddy uma urgência que nunca se torna histriónica. Depois da fuga, Maddy desaparece, a mãe de Owen, Brenda (Danielle Deadwyler), morre de cancro e a série é cancelada ao fim de cinco temporadas.

A segunda metade passa para 2006. Owen vive com o pai, Frank (Fred Durst), e trabalha num cinema local. Maddy regressa numa noite, leva-o a um bar e garante ter passado dois anos dentro do programa. Convence-o a rever o último episódio, em que Mr. Melancholy prende a consciência de Isabel e Tara no “Midnight Realm”, um universo parecido com o mundo real. Terminado o episódio, Owen entra em colapso e tenta enfiar a cabeça no ecrã. Frank puxa-o para trás. A imagem é poderosa, mas o salto temporal é brusco e a revelação sobre o “Midnight Realm” chega depressa demais. Falta tempo para que o espectador sinta a mudança em vez de a ouvir explicada.

Helena Howard e Lindsey Jordan dão corpo a Isabel e Tara, Conner O’Malley está no elenco e Emma Portner interpreta Mr. Melancholy, entre outros papéis. Durst e Deadwyler têm pouco tempo de ecrã, e lamenta-se. Houve quem achasse o terror escasso para o género anunciado, e a queixa tem fundamento: o medo vem menos de sustos do que da suspeita de que a vida real possa ser a versão falsa.

Muitos espectadores vêem em The Pink Opaque uma metáfora da experiência trans. É uma leitura que funciona, mas o filme diz também algo sobre a vida de fã e sobre as vidas adiadas. É o segundo título da Trilogia dos Ecrãs de Schoenbrun, depois de We’re All Going to the World’s Fair (2021) e antes de Teenage Sex and Death at Camp Miasma (2026), e está ligado ao romance Public Access Afterworld.

Produzido por Emma Stone e Dave McCary, através da Fruit Tree, e distribuído pela A24, estreou no Sundance a 18 de janeiro de 2024 e chegou às salas norte-americanas a 3 de maio. A crítica foi sobretudo favorável e o filme somou cinco nomeações aos Independent Spirit Awards, incluindo a de melhor filme.

O resultado é irregular e, por isso mesmo, fica na memória. Tem uma ideia visual própria e uma dor verdadeira no centro. Tropeça na estrutura e no equilíbrio entre drama e terror, e a dúvida que planta sobre o que é real continua a incomodar muito depois de a sessão acabar.

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Fotos: The Movie Database (TMDB)

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