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Justice Smith, o eterno secundário que Heated Rivalry pôs à prova

Penelope H. Fritz
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Justice Smith
Justice Smith
Photo: Greg2600 / CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons
Nascimento9 de agosto de 1995
Los Angeles, California, United States
OcupaçãoAtor
Conhecido porDungeons & Dragons: Honra Entre Ladrões, Pokémon: Detetive Pikachu, Mundo Jurássico: Reino Caído
PrémiosGlobo de Ouro

Quando a Crave anunciou que Justice Smith vai interpretar Harris Drover na segunda temporada de Heated Rivalry, a discussão mais ruidosa nas redes não foi sobre o seu talento. Foi sobre a sua cintura. Nos romances de Rachel Reid, Harris é entroncado, de peito largo e barriga mole, e uma parte dos fãs que transformou o romance no gelo num fenómeno queria ver esse corpo no ecrã. Smith, que é magro, respondeu a agradecer aos desconhecidos que lhe enchiam a caixa de mensagens de apoio. Foi uma receção estranha para um ator que quase nunca foi escolhido pelo físico, mas para fazer de amigo nervoso, de rapaz que explica o enredo, daquele que grita quando aparece o dinossauro.

Essa distância entre o uso que a indústria fez dele e aquilo que consegue quando lhe dão espaço é o verdadeiro tema da sua carreira. Os grandes êxitos de bilheteira tornaram o seu rosto familiar. Dois projetos pequenos e inquietantes obrigaram a crítica a olhá-lo com atenção. O próximo ano dirá qual destes dois atores o negócio decidiu ver.

Justice Elio Smith nasceu em Los Angeles a 9 de agosto de 1995 e cresceu em Anaheim, nos subúrbios do condado de Orange, onde, como contou a Jesse Tyler Ferguson no podcast Dinner’s On Me, foi vítima de bullying durante todo o secundário. O teatro foi a saída. Participou em produções locais e terminou os estudos na Orange County School of the Arts em 2013.

O primeiro papel de peso no cinema foi Radar, o melhor amigo de humor seco em Cidades de Papel, a adaptação de John Green. Depois, Baz Luhrmann deu-lhe o papel principal em The Get Down, o dispendioso drama musical da Netflix sobre o nascimento do hip-hop no Bronx em chamas dos anos 70. Smith interpretou Ezekiel Figuero, um poeta adolescente que se torna MC, e preparou-se a viver num apartamento do Bronx durante toda a rodagem. A Netflix cancelou a série ao fim de uma única temporada, estreada em duas partes, mas valeu-lhe um lugar na lista 30 Under 30 da Forbes e um cartão de visita que nenhum diretor de casting podia ignorar.

Usou-o primeiro no palco. No início de 2017 foi para Nova Iorque contracenar com Lucas Hedges em Yen, a peça de Anna Jordan sobre dois irmãos adolescentes entregues a si próprios, no Lucille Lortel Theatre. A produção trouxe-lhe nomeações para os prémios Drama Desk e Lucille Lortel, um primeiro sinal de que a câmara estava a perder alguma coisa.

Hollywood fez então o que costuma fazer com um ator jovem e simpático: estacionou-o ao lado do espetáculo. Em Mundo Jurássico: Reino Caído foi Franklin Webb, um técnico informático que passa boa parte do filme aos gritos, papel que repetiu na sequela. Em Pokémon: Detetive Pikachu foi o protagonista humano, Tim Goodman, contraponto sério de um detetive digital com a voz original de Ryan Reynolds. Em Dungeons & Dragons: Honra Entre Ladrões foi Simon, o feiticeiro inseguro do bando de Chris Pine. Entre franquias chegaram romances juvenis como Fala-me de Um Dia Perfeito, ao lado de Elle Fanning, em que a sua personagem, um rapaz atormentado, carregava grande parte do filme.

Os resultados dizem mais sobre os papéis do que sobre o ator. Mundo Jurássico: Reino Caído valeu-lhe uma nomeação para os Razzie como pior ator secundário, uma troça dirigida a uma personagem escrita quase só como pânico. The American Society of Magical Negroes, a sátira de Kobi Libii que finalmente lhe deu um protagonista adulto num filme de estúdio, pretendia ridicularizar o hábito de Hollywood de criar personagens negras que só existem para salvar as brancas. A crítica achou-a tímida, a pontuação no Rotten Tomatoes ficou à volta dos 30% e o filme saiu das salas três semanas depois da estreia, com cerca de 2,5 milhões de dólares. Um filme sobre a forma como a indústria usa os atores negros acabou por ser um pequeno exemplo do problema que denunciava: Smith é preciso, mas o argumento quase só lhe pede que reaja.

A viragem chegou pelo lado oposto. Em junho de 2020, Smith assumiu-se queer no Instagram, numa mensagem escrita em solidariedade com as vidas trans negras, e nomeou o companheiro de então, o ator Nicholas L. Ashe. Interpretou depois Chester, um estudante de género fluido, em Genera+ion, da HBO Max, e Jane Schoenbrun escolheu-o para Owen em I Saw the TV Glow, o filme da A24 sobre dois adolescentes solitários unidos por um programa de televisão noturno, lido por muitos como uma alegoria da repressão trans. Smith interpreta o mesmo homem ao longo de décadas, cada vez mais fechado sobre si, e a interpretação constrói-se com tudo aquilo que Owen não ousa dizer. Valeu-lhe nomeações para melhor interpretação principal nos Gotham e nos Film Independent Spirit Awards: a primeira vez que os júris o trataram como o centro de um filme e não como o seu apoio.

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Não largou o palco. Em 2024 interpretou Adi numa produção off-Broadway de Creditors no Minetta Lane Theatre e emprestou voz, movimentos e rosto ao videojogo de terror The Quarry. Numa conversa em podcast publicada em dezembro de 2025, disse que nunca mais vai namorar com uma mulher, «não porque não me sinta atraído por elas», mas porque não gostava da «sensação de ter de ser o homem da relação». A frase circulou como mexerico. Lê-se melhor como a confissão de um ator que descreve um papel que já não quer representar fora do ecrã.

A estreia mais recente foi Now You See Me: Now You Don’t, terceiro capítulo da saga de golpes realizado por Ruben Fleischer, em que se juntou aos ilusionistas no papel de Charlie, ao lado de Dominic Sessa e Ariana Greenblatt. Seguem-se dois filmes que apontam em direções muito diferentes. White Elephant é a comédia de terror natalícia de Eli Craig, em que uma troca de presentes entre amigos se torna mortal, com Nick Jonas e Kathryn Newton. Trust the Man é o thriller de Will Graham passado na Guerra do Vietname, sobre um oficial dos serviços de informações do Exército encarregado de investigar um soldado condecorado, com Daniel Radcliffe e Jonathan Groff, rodado este verão em Nova Jérsia; o papel de Smith não foi revelado.

Depois chega Harris. A série de Jacob Tierney, produzida pela Crave no Canadá e emitida pela HBO Max nos Estados Unidos, regressa na primavera de 2027 com Hudson Williams e Connor Storrie de novo como Shane e Ilya. Smith fará par com Charlie Gillespie, que interpreta Troy Barrett, o jogador transferido que Harris, responsável pelas redes sociais da equipa de Otava, decide tirar da carapaça. Rachel Reid respondeu às críticas lembrando quantos leitores tinham duvidado dos protagonistas da primeira temporada. A dúvida sobre Smith é outra, e joga a seu favor: pela primeira vez, ninguém pergunta se ele pode ser protagonista. Discute-se que tipo de protagonista deve ser.

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