Críticas

Jogo Justo mostra como o sucesso dela pode envenenar uma relação por dentro

Chloe Domont estreou-se na longa-metragem em 2023 com um thriller de Wall Street incómodo e certeiro.
Martha O'Hara
Adicione-nos no Google

O sangue abre e fecha Jogo Justo, mas o primeiro não vem de onde se espera. O filme começa num casamento, com uma cena numa casa de banho que nada tem de violento, e é nesse mesmo casamento, o do irmão dele, que Luke (Alden Ehrenreich) pede Emily (Phoebe Dynevor) em casamento. Ela hesita por um instante e aceita. Ambos trabalham como analistas na One Crest Capital, um hedge fund de Manhattan, e escondem dos colegas que estão juntos. O resto do filme nasce desse segredo e dessa hesitação.

Chloe Domont, que aqui se estreia na longa-metragem, trabalha com uma premissa enxuta: uma promoção inesperada. Emily fica com o lugar de gestora de portefólio que todos davam a Luke. Ele diz que a apoia, e o filme dedica-se a mostrar quanto custa esse apoio. O ressentimento instala-se em gestos pequenos. Luke recusa as investidas dela e vai dormir. Gasta 3000 dólares num curso de um guru de autoajuda que ensina a impor-se no trabalho e sugere que a própria Emily só teria a ganhar em ser mais assertiva. Ela fica na defensiva, e com razão.

YouTube video

O terreno mais sólido da realizadora é o escritório, sobretudo as cenas entre Dynevor e Eddie Marsan, que dá a Campbell, o CEO, uma ameaça sem esforço. Num copo com ele e com Paul (Rich Sommer), Emily percebe que Campbell quer livrar-se de Luke. Quando tenta defendê-lo e a aposta dele corre mal, com um prejuízo de 15 milhões de dólares, é ela que leva o insulto. Dynevor interpreta esse momento com raiva contida e uma vontade de agradar a quem a trata com desprezo que é difícil de ver sem desconforto. Depois, Luke passa-lhe informação privilegiada. Receosa de que a operação seja ilegal, Emily sugere a Campbell outra empresa, e a aposta resulta.

É aí que chega a comissão de 575 mil dólares. Emily pensa em festejar com Luke, que está no gabinete dela fora de horas a discutir estratégias, mas acaba por sair com os colegas homens para um clube de striptease. Luke, que viu o cheque, não quer saber dela. Domont filma o sucesso de Emily como algo que o casal não consegue suportar.

O curso de 3000 dólares é, para mim, o ponto mais fraco da primeira metade: soa a pretexto, como se o argumento precisasse de uma peça concreta para empurrar Luke para a amargura. Ehrenreich esforça-se, mas o homem ressentido demais para ser credível está ali, escrito em demasia.

O terceiro ato é onde o filme derrapa. Luke faz diante de Campbell um discurso elaborado de lealdade, só para descobrir que o cargo já foi preenchido. Embriagado, acusa Emily de lhe roubar o lugar, e ela responde que Campbell o queria despedir. Dias depois, entra alcoolizado numa reunião com investidores estrangeiros, humilha Campbell e revela a relação com Emily, proibida pela empresa. A cena é exagerada e quase paródica, e rompe o tom realista que Domont tinha construído com cuidado. As humilhações acumulam-se depressa demais e o argumento salta do atrito para a explosão sem mostrar o caminho.

Brian McOmber assina a banda sonora, mas a música que fica é a da abertura: «Love to Love You Baby», de Donna Summer, em versão estendida. É uma faixa feita para a pista e para o quarto, num filme sobre um desejo que azeda quando o poder e o dinheiro entram na relação. A escolha é boa, mesmo quando o contraste se torna demasiado evidente.

Nem todos os críticos tropeçaram onde eu tropecei. O site de Roger Ebert achou o filme intenso até ao excesso, mas nunca implausível, e o Guardian descreveu-o como psicologia de guerra lúrida e divertida, com reservas. A crítica foi, no geral, favorável. Rian Johnson é produtor executivo, e a aposta num thriller de câmara sobre um casal, em vez de um grande espetáculo, parece-me a mais acertada das decisões do filme. Sommer, como Paul, fica sempre perto de Campbell e testemunha o que acontece a Emily, cada vez mais a única mulher na sala.

Jogo Justo estreou no Sundance em 20 de janeiro de 2023, chegou a salas selecionadas em 29 de setembro e passou para a Netflix em 6 de outubro. Fica o desgaste do casal, que Domont acerta, e a interpretação de Dynevor, que carrega o filme mesmo quando o final força a mão.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

Etiquetas: , , , , ,

Adicione-nos no Google

Discussão

Existem 0 comentários.