Críticas

The Ring – O Aviso continua a assustar porque confia mais no silêncio do que no choque

O remake de Gore Verbinski (2002) levou o terror asiático a Hollywood com um som que não perdoa.
Martha O'Hara
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A pergunta que The Ring – O Aviso coloca logo à partida é simples: e se uma história de adolescentes fosse verdadeira? Katie e a amiga Becca falam de uma lenda urbana, a de uma cassete que mata quem a vê uma semana depois, e nessa mesma noite Katie morre às mãos de uma força que nunca chegamos a ver. Gore Verbinski, que realiza este remake de 2002 do êxito japonês de 1998, não perde tempo com explicações. Pega na lenda e entrega-a a uma jornalista, que a trata como uma pista.

Rachel Keller, interpretada por Naomi Watts, vive em Seattle e é tia de Katie. É a irmã, Ruth, quem lhe pede que investigue a morte da filha. Rachel descobre que os amigos de Katie morreram em acidentes bizarros na mesma altura e vai à Shelter Mountain Inn, onde eles viram a cassete. Vê-a também. O telefone do quarto toca logo a seguir e uma voz sussurra “Seven days”. A partir daí, o filme deixa de ser uma investigação sobre os outros e passa a ser uma contagem decrescente sobre ela.

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O guião de Ehren Kruger leva a premissa a sério sem pedir ao espectador mais crença do que o necessário, e a interpretação de Watts é o que segura essa seriedade. A atriz faz de Rachel uma mulher prática, que só vacila quando o filho entra na equação. Esse contraste é o centro do filme. David Dorfman, como Aidan, tem uma presença calada, de criança que parece saber mais do que diz, e é por causa dele que Rachel não pode desistir. Martin Henderson, no papel de Noah, o ex-marido que trabalha como analista de vídeo, é o menos servido: está ali para a trama, não para a emoção.

A melhor parte do filme é a investigação. Rachel identifica uma mulher na cassete, Anna Morgan, criadora de cavalos que se matou depois de alguns dos animais se afogarem ao largo da ilha de Moesko. Na travessia de ferry até lá, um cavalo atira-se ao mar. A cena é curta e perturbadora porque, naquele momento, ninguém a explica. Depois, o guião junta as peças com paciência: Anna adotou Samara, a menina interpretada por Daveigh Chase, depois de quatro abortos espontâneos; Samara tinha o poder de gravar imagens em objetos e na mente das pessoas; e os pais isolavam-na num sótão do celeiro. Richard, marido de Anna, a quem Brian Cox dá um peso triste, insiste que a menina é má e eletrocuta-se. A árvore escondida por baixo do papel de parede, que Rachel reconhece da pousada, é revelada sem sustos fáceis.

O som é onde o filme mais convence. O site Horror Movie Talk chama ao desenho de som “absolutamente perfeito”, e é difícil discordar: grande parte do medo vem do que se ouve, não do que se vê. A banda sonora de Hans Zimmer acompanha essa lógica. Os títulos das faixas, “Rachel Alone”, “4 Days”, “Before You Die You See the Ring”, já contam a história, e a música serve o ambiente antes de servir o susto.

Nem tudo funciona. Quando o filme passa a documentar o passado de Samara, perde um pouco do mistério que tinha: a ficha do hospital psiquiátrico de Eola, a certidão de nascimento falsa e o vídeo em que a menina diz “eles não vão parar” chegam com ar de processo arquivado. Alguns momentos da investigação ficam, por isso, mais previsíveis do que a primeira meia hora fazia esperar, e o ritmo abranda aqui e ali. Também a cópia da cassete que Rachel faz para Noah parece mais um expediente do guião do que uma decisão da personagem.

O momento em que Rachel cai no poço da pousada e vê Anna a atirar Samara lá para dentro, onde a menina sobreviveu uma semana, é o ponto emocional da história. Rachel e Noah dão-lhe um funeral digno, e o filme parece fechar o ciclo. Mas Aidan avisa a mãe de que ajudar Samara foi um erro, e Rachel percebe que a semana de Noah chegou ao fim. Ficamos com a ideia de que consertar a maldição pode ser apenas outra forma de a alimentar, e é isso que torna o desfecho desconfortável.

Há ainda a questão da origem. The Ring – O Aviso é um remake do japonês Ringu, baseado no romance de Koji Suzuki, de 1991, e a versão americana explica mais e deixa menos no ar. O Salon, em 2003, via no filme uma amostra do “bufete de paranoia” contemporâneo, do tabu do sexo antes do casamento ao infanticídio. Talvez seja exagero ler tanto, mas a história de Samara, uma criança isolada pelos pais adotivos, dá de facto ao terror uma base mais triste do que o habitual.

O filme estreou nos Estados Unidos a 18 de outubro de 2002, pela DreamWorks, com críticas entre o misto e o positivo. Roger Ebert elogiou um terror que não insulta a inteligência do espectador e guarda o mais assustador para o fim. Arrecadou 249,3 milhões de dólares em todo o mundo, venceu os Saturn de melhor filme de terror e de melhor atriz, para Watts, e abriu caminho a remakes americanos de outros terrores asiáticos, como The Grudge (2004) e Dark Water (2005).

Vale a pena ver The Ring – O Aviso pela protagonista, pelo som e pela investigação, que prende até ao último dos sete dias. Explica mais do que devia e deve ao original japonês, mas o final continua a incomodar.

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Fotos: The Movie Database (TMDB)

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