Críticas

Venom: Tempo de Carnificina é uma comédia de companheiros de casa assumidamente tola e descartável

A sequela realizada por Andy Serkis em 2021 abraça o absurdo em 90 minutos.
Martha O'Hara
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O simbionte vermelho que irrompe pela prisão de San Quentin quando a execução de Cletus Kasady corre mal é a cena que melhor resume “Venom: Tempo de Carnificina” (Venom: Let There Be Carnage, 2021): violento, absurdo e tão ansioso por divertir que nunca para para respirar. Andy Serkis, o realizador, é conhecido pelo trabalho em captura de movimento e dirige o filme com a energia de quem quer saltar de um número para o seguinte, mas sem a substância que justificasse a pressa.

É a sequela direta do primeiro “Venom”, realizado por Ruben Fleischer, e coloca Eddie Brock (Tom Hardy), jornalista de investigação, e o seu simbionte alienígena perante Cletus Kasady (Woody Harrelson), um assassino em série que só aceita falar com Eddie. Graças a essa conversa, Cletus acaba condenado à morte e convida o jornalista para a execução. Provoca-o, Venom ataca e Cletus morde a mão de Eddie, engolindo sem saber um pedaço do simbionte. É assim que nasce Carnage. A trama serve sobretudo de pretexto para pôr dois pares de inimigos em rota de colisão, e o filme vive de o assumir sem rodeios.

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O que sustenta tudo é a convivência forçada entre Eddie e o simbionte. A Silver Screen Riot descreve o filme como uma comédia de colegas de casa, um «Beetlejuice encontra The Odd Couple»: Venom só quer arrancar cabeças e Eddie impôs a regra de «nada de homicídios» debaixo do seu teto. A IGN vai mais longe e recorda que o próprio Serkis o descreve como uma história de amor entre Eddie e Venom. É por aí que o humor pega, como no «porco-cão-cavalo-pato» com que Eddie descreve o simbionte, ou na cena em que Venom desfaz a cozinha, que a IGN compara a uma passagem do «Aprendiz de Feiticeiro», do Fantasia. A zanga que daí nasce, e que leva o simbionte a abandonar o corpo de Eddie por querer mais liberdade, é o único conflito emocional que o filme trata a sério, e é o que dá algum peso ao que vem depois.

Hardy faz de Eddie, nas palavras do The Action Elite, um falhado simpático que precisa de Venom para chegar ao seu potencial, e vice-versa. Tem graça que o ator contracene consigo mesmo, já que a IGN lembra que Venom também é Tom Hardy. Harrelson, que segundo o The Action Elite «nunca despacha o trabalho», quase consegue que simpatizemos com Cletus apesar de ser um assassino. A IGN descreve um vilão movido por vingança e dor, e esse fundo emocional, por mais rudimentar que seja, torna-o menos unidimensional do que o habitual neste género.

Naomie Harris, como Frances Barrison, a Shriek, está tão irreconhecível que o crítico do The Action Elite teve de se lembrar de que ela já foi a Moneypenny. O romance entre os dois vilões é uma boa ideia: o par de assassinos ama-se a sério, enquanto o herói continua sem sorte no amor. Michelle Williams volta como Anne Weying, Reid Scott é Dan e Peggy Lu aparece como a Sra. Chen. Segundo a IGN, é um elenco de apoio pequeno mas bem aproveitado, num mundo mais reduzido e com uma ameaça mais próxima do círculo de Eddie.

A mistura de registos é a parte mais irregular. A Silver Screen Riot elogia o argumento de Kelly Marcel por abraçar o disparate sem pudor, mas o crítico do Guardian descreve o filme como «admiravelmente descontraído, mas completamente descartável», e a verdade é que as duas coisas coexistem no ecrã. A IGN nota a viragem da conspiração de ficção científica do primeiro filme para algo mais próximo de um policial sobre um assassino em série, na linha de “Seven” ou “Zodiac”, com Eddie e o detetive a juntar as peças dos crimes. É uma combinação estranha, e quando o filme sai da graça doméstica para a caça ao assassino, a mudança sente-se. O The Action Elite chega a suspeitar que parte da violência foi cortada para manter a classificação etária, e admite que muitos fãs queriam um filme para maiores, embora ache que mais sangue não o tornaria melhor. Concordo com a segunda parte: o problema não é falta de gore, é que o perigo de Carnage raramente se sobrepõe à piada seguinte.

Nas cenas de pancadaria Serkis sente-se em casa. A IGN destaca a confiança nos efeitos práticos e digitais, que dão a Venom uma presença física e uma destruição palpáveis, e a câmara ativa que acompanha a energia caótica de Carnage e Kasady. O The Action Elite diz não ter queixas dos efeitos visuais. A música de Marco Beltrami, que substituiu Ludwig Göransson, não é memorável, mas ganha coros épicos no confronto final, segundo o mesmo texto. Com apenas 90 minutos, o filme evita o inchaço de tantos blockbusters recentes, ponto que a Silver Screen Riot e o The Action Elite sublinham, e essa economia é talvez o seu maior mérito.

A produção arrancou ainda durante o primeiro filme, no qual Harrelson só aparecia numa breve cena final. Serkis foi contratado em agosto de 2019, em parte pela experiência com captura de movimento, e as filmagens decorreram nos Leavesden Studios, em Inglaterra, de novembro de 2019 a fevereiro de 2020, com cenas adicionais em São Francisco. O título foi anunciado em abril de 2020, e a estreia, inicialmente marcada para outubro desse ano, foi adiada várias vezes por causa da pandemia de COVID-19. Chegou às salas dos Estados Unidos a 1 de outubro de 2021. A crítica ficou dividida, mas a bilheteira foi sólida: 506 milhões de dólares em todo o mundo e o sétimo lugar entre os filmes do ano.

“Venom: Tempo de Carnificina” vale pelos momentos em que Hardy e a criatura se atiram à cara um do outro dentro de casa, e pouco mais. O Guardian elogia a leveza e na mesma frase chama-lhe descartável, e é difícil discordar de qualquer das metades. Não é um grande filme, mas é um que sabe exatamente o disparate que quer ser, e em hora e meia raramente se arrasta.

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Fotos: The Movie Database (TMDB)

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