Música

Morreu Barry Mitchell, o baixista que moldou os Queen antes de John Deacon

Alice Lange

Antes de os Queen se tornarem o monumento de quatro cabeças do rock de estádio, eram uma banda jovem ainda a ensaiar a sua própria identidade — a trocar músicos, a testar canções, a descobrir quem queria ser. Barry Mitchell foi uma das pessoas nessa sala. Segurava as notas graves enquanto o grupo ainda decidia como é que uma canção dos Queen soava, e depois saiu antes de o mundo alguma vez aprender o nome.

Mitchell morreu, uma perda confirmada por Greg Brooks, o arquivista oficial de longa data da banda, que o descreveu como um antigo baixista dos Queen e partilhou a notícia com a comunidade de fãs que tem mantido viva a história da banda antes da fama. As homenagens que se seguiram foram calorosas e específicas — de pessoas que realmente falaram com ele, não apenas de quem o ouviu em streaming.

A abreviatura dos obituários vai chamar-lhe o baixista antes de John Deacon, e isso é verdade, mas subestima o que ele foi. Mitchell foi o segundo baixista dos Queen, juntando-se depois de Mike Grose e tocando numa série de concertos nos primeiros meses da banda. Foi seguido por Doug Bogie, e só depois por Deacon, o homem que ficaria. Antes de os Queen terem uma formação fixa, por outras palavras, eram uma porta giratória — e Mitchell é uma das dobradiças em que a porta girou.

O que torna a sua passagem mais do que uma curiosidade é o que ele alegadamente deixou para trás. Segundo relatos partilhados após a sua morte, Mitchell tocou as linhas de baixo originais de “Liar” e “Son and Daughter” — canções que mais tarde surgiriam nos discos dos Queen, executadas por outras mãos. Se isso se confirmar, então uma parte do que o público ouviu nessas gravações iniciais começou com um músico que já tinha partido quando elas foram prensadas. Essa é a forma silenciosa e sem glamour como as bandas são realmente construídas: alguém cria uma parte, segue em frente, e a parte sobrevive à pessoa que a descobriu primeiro.

Isto é o que o mito do quarteto tende a apagar. Os Queen são recordados como uma unidade imaculada — Mercury, May, Taylor, Deacon — como se tivessem chegado já completamente formados. Não foi o caso. Como quase todas as bandas icónicas, foram montados através de falsos começos e de pessoas que contribuíram e partiram, cujas impressões digitais estão na fundação mesmo quando os seus nomes não figuros nos créditos. A morte de Mitchell é um lembrete de que o monumento tinha andaime, e o andaime tinha rostos.

Também não desapareceu no esquecimento. Quem o conheceu recorda um músico que continuou a tocar e a contar a história — as suas anedotas de convenções de fãs eram, segundo um relato, fascinantes, oferecendo raros detalhes de testemunha ocular sobre uma versão dos Queen que existe agora apenas na memória. “Ele era um grande tipo, e um amigo”, escreveu Gary Taylor, chamando-lhe o segundo baixista dos Queen. “Adeus a um homem verdadeiramente adorável”, acrescentou Mark Cotterill. O luto veio de uma comunidade que o valorizava exatamente pela história que a narrativa mainstream ignora.

Há algo de esclarecedor em perder uma figura como esta. As pessoas que estiveram presentes na génese de uma banda estão, por definição, a envelhecer, e cada uma que parte leva consigo uma memória em primeira mão — um concerto específico, uma discussão na sala de ensaios, o som de uma canção antes de se tornar a versão que todos conhecem. Mitchell carregava um pedaço disso, e partilhou-o generosamente enquanto pôde.

A lenda dos Queen não precisa de ser reescrita. Mas merece ser contada com o seu elenco completo — incluindo o baixista que ajudou a moldar o som, depois o passou adiante e deixou a banda tornar-se aquilo pela qual é recordada. A parte não celebrada nunca foi que ele não foi ouvido. É que nos esquecemos de que ele esteve lá no início.

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