Actores

Natasha Lyonne, a atriz e realizadora que reconquistou a carreira e volta a arriscá-la

Penelope H. Fritz
Adicione-nos no Google
Natasha Lyonne
Natasha Lyonne
Photo: Gage Skidmore / CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons
Nascimento4 de abril de 1979
New York City, New York, United States
OcupaçãoAtriz, argumentista e realizadora
Conhecido porGlass Onion: Um Mistério Knives Out, Diamante Bruto, American Pie – A Primeira Vez
PrémiosSAG (compartilhado) · TCA Award for Individual Achievement in Comedy · Chicago Film Critics Association Award for Best Supporting Actress

Numa história que parece escrita para o ecrã, há um quarto de hospital em Manhattan onde uma doente deu entrada com nome falso. Essa doente chama-se Natasha Lyonne e hoje escreve, realiza e protagoniza as séries que levam o seu rosto, além de dirigir a produtora que as faz. Poucas atrizes receberam uma segunda carreira de forma tão evidente, e quase nenhuma a gastou com tanta inquietação: sempre que a indústria julga tê-la arrumado numa gaveta, Lyonne escolhe algo que põe essa posição em risco, seja um estúdio de inteligência artificial, seja a saída da série mais vista que alguma vez encabeçou.

A infância que alimenta essa inquietação nada teve de comum. Natasha Bianca Lyonne Braunstein nasceu em Nova Iorque a 4 de abril de 1979, filha de pais judeus ortodoxos. A mãe nascera em Paris, filha de sobreviventes húngaros do Holocausto; o pai, Aaron Braunstein, organizava combates de boxe e mais tarde apresentou um programa de rádio. Passou os primeiros anos em Great Neck, em Long Island, e depois cerca de um ano e meio em Israel, onde um papel no filme infantil April Fool lhe deu a primeira experiência de rodagem.

Aos sete anos já era Opal em Pee-wee’s Playhouse, e anos mais tarde confessou à revista Heeb que “aos dez anos era uma profissional desencantada”. A Ramaz School, um colégio judaico privado de Manhattan que a recebera como bolseira, expulsou-a por vender marijuana aos colegas. Estudou cinema e filosofia durante pouco tempo na Tisch School of the Arts da Universidade de Nova Iorque e desistiu por não conseguir pagar as propinas.

O final dos anos 90 deu-lhe o papel que ainda a define para parte do público. Em Slums of Beverly Hills, de Tamara Jenkins, interpretou Vivian Abromowitz, uma adolescente arrastada de um apartamento barato para outro por um pai falido, e o filme encontrou um tom seco, exposto e muito engraçado perante a humilhação, que ela nunca deixou de apurar. Woody Allen já a escolhera para Toda a Gente Diz Que Te Amo. But I’m a Cheerleader, de Jamie Babbit, tornou-a uma referência do cinema queer, e American Pie – A Primeira Vez apresentou-a ao grande público como Jessica, a colega de turma que já sabe tudo.

Depois, a carreira esteve perto de acabar com ela. O início dos anos 2000 trouxe detenções e um despejo, e em 2005 foi internada sob pseudónimo no Beth Israel Medical Center, em Manhattan, com hepatite C, uma infeção cardíaca e um pulmão colapsado, enquanto fazia tratamento com metadona para a dependência de heroína. Em 2006 entrou num centro de reabilitação e em dezembro desse ano começou um longo período de sobriedade. As sequelas no coração obrigaram a uma cirurgia de coração aberto em 2012. A reconstrução começou no palco: Two Thousand Years, de Mike Leigh, em 2008, e depois Love, Loss, and What I Wore, das irmãs Ephron, fora da Broadway.

Orange Is the New Black entregou-lhe Nicky Nichols, a reclusa cujo espírito andava sempre um passo à frente do vício, ao longo de 81 episódios e de uma nomeação para os Emmy em 2014; na última temporada, realizou também um episódio. A verdadeira viragem foi Boneca Russa, que criou com Leslye Headland e Amy Poehler para a Netflix em 2019. Nadia Vulvokov, uma engenheira informática que morre e acorda sem fim na própria festa de anos, permitiu-lhe escrever a mortalidade como comédia, e a série valeu-lhe no mesmo ano nomeações para os Emmy como produtora, argumentista e atriz principal. Nesse ano fundou a Animal Pictures com Maya Rudolph, que deixou a empresa em 2023.

Rian Johnson construiu depois Poker Face à sua medida para a Peacock. Charlie Cale, empregada de casino capaz de detetar qualquer mentira, percorre motéis e restaurantes de estrada a resolver um homicídio por semana, e Lyonne também escreveu e realizou episódios. O papel deu-lhe em 2023 o prémio da Associação de Críticos de Televisão para interpretação individual em comédia e nomeações para os Emmy e os Globos de Ouro. No cinema, As Três Filhas, de Azazel Jacobs, valeu-lhe o prémio de melhor atriz secundária da Associação de Críticos de Chicago, e a Marvel escolheu-a para Rachel Rozman em O Quarteto Fantástico – Primeiros Passos.

A questão delicada é a forma como decidiu usar esse poder. A Asteria, o estúdio de inteligência artificial que fundou com Bryn Mooser, devia produzir a sua estreia na realização de longas-metragens, Uncanny Valley, escrita com Brit Marling e apresentada como montra de uma tecnologia “limpa e ética”, treinada apenas com material licenciado. O anúncio caiu numa indústria ainda ferida pelas greves de 2023 e a reação foi imediata: os críticos recusaram o rótulo de “ética” e perguntaram o que aconteceria aos cenógrafos e animadores que essas ferramentas podem substituir. Lyonne respondeu que não se tratava de “um filme de IA generativa” e que a tecnologia serviria para coisas como extensões de cenário. É uma posição estranha para uma intérprete cujo encanto assenta numa voz inconfundivelmente humana, aquela rouquidão de gravilha e tabaco que nenhum programa precisa de inventar: é ela, hoje, a atriz e realizadora mais visível associada à tecnologia que os colegas mais temem.

YouTube video

O último ano pô-la à prova à vista de todos. A Peacock cancelou Poker Face em novembro de 2025, ao fim de duas temporadas; Lyonne e Johnson acordaram que ela deixaria a personagem Charlie e continuaria como produtora executiva, enquanto Johnson propunha a série a outras plataformas com Peter Dinklage como protagonista. Em janeiro de 2026, os Globos de Ouro voltaram a nomeá-la pelo papel. Menos de duas semanas depois, revelou no X que tinha tido uma recaída após anos de sobriedade e descreveu a recuperação como um processo para a vida inteira; em março, disse estar “muito melhor”. Em abril juntou-se à terceira temporada de Euphoria, da HBO, e em julho o festival Italian Global Series entregou-lhe o prémio Maximo de excelência.

Os próximos passos apontam em duas direções. Klara e o Sol, de Taika Waititi, adaptado do romance de Kazuo Ishiguro, com Jenna Ortega e Amy Adams, chega às salas norte-americanas a 23 de outubro com Lyonne no elenco. Produz Red Sea, um thriller de sobrevivência realizado pela cineasta saudita Lina Malaika. E escreveu Bambo, um drama de boxe passado nos anos 80 que pretende realizar, com Craig Mazin entre os produtores, sobre um promotor de Brooklyn que persegue o sucesso de Don King com a filha pequena atrás de si. Depois de décadas em que outros decidiram quem ela era, a história que escolheu contar agora começa no ofício do pai.

Filmes em destaque

Etiquetas: , , , , ,

Notícias em destaque — Natasha Lyonne

Ver todas →

Adicione-nos no Google

Discussão

Existem 0 comentários.