Actores

Nathania Ong troca a Éponine do West End por papéis ainda por escrever

Penelope H. Fritz
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Nathania Ong
Nascimento1999
Singapura
OcupaçãoAtriz e cantora
PrémiosForbes 30 Under 30 Asia

No KC Arts Centre, em Singapura, Nathania Ong entrou em palco de camisola com capuz e abriu o seu espetáculo a solo com «Don’t Rain on My Parade». Não havia peruca nem barricada, nem personagem por detrás da qual se pudesse esconder. Para uma cantora cuja reputação se construiu a interpretar papéis de outras mulheres — Éponine em Les Misérables e Eliza em Hamilton —, era esse precisamente o propósito. Disse à Tatler Singapore que as personagens que mais gostaria de interpretar a seguir são «aquelas que ainda não foram escritas». O ano que passou em casa foi um longo teste a essa ideia — e à possibilidade de o público que se apaixonou pela sua Éponine acompanhá-la noutras paragens.

Na família Ong, cantar veio antes da ambição. É a mais nova de quatro irmãs, e o pai, Kevin Ong, dentista que chegou a cantar semi-profissionalmente, foi o seu primeiro professor de canto; segundo conta, ainda hoje tem observações sobre todas as atuações. Lembra-se de uma viagem de carro em que toda a família cantava em voz alta cinco canções diferentes ao mesmo tempo — um caos que, de alguma forma, resultava.

O palco surgiu cedo na sua vida. Aos cinco anos, cantou a balada do Dia Nacional «Home» com uma das irmãs, num concerto do Total Defence Day; aos 12, dirigiu o coro na interpretação do hino nacional perante 27 mil pessoas, na cerimónia de encerramento dos Jogos Olímpicos da Juventude de 2010. Na escola, o palco teve menos importância. Nascida em 1998, Ong frequentou a Methodist Girls’ School, praticou cheerleading de competição durante oito anos e integrou o programa de opção de teatro do Anglo-Chinese Junior College. «Não era muito inteligente e não tinha grandes resultados nos estudos», disse à SilverKris. «E o gosto por representar nunca desapareceu.» Depois dos exames A-level, candidatou-se a escolas de teatro no Reino Unido e foi rejeitada por todas. Passou um ano a estudar representação na LASALLE College of the Arts, voltou a candidatar-se e, em 2018, conseguiu um lugar no curso de teatro musical da Mountview Academy of Theatre Arts, em Londres. Para financiar a mudança, teve três empregos a tempo parcial, no comércio e como explicadora.

Já em Londres, as oportunidades surgiram depressa. Ainda estudante na Mountview, em 2021, estreou-se no West End como Jenna Rolan, a coscuvilheira da escola em Be More Chill, no Shaftesbury Theatre. Durante as cinco semanas em cena, fez uma audição para o papel de Éponine na digressão de Les Misérables pelo Reino Unido e pela Irlanda — um espetáculo que nunca tinha visto. Conseguiu o papel e tornou-se a primeira singapurense a interpretá-lo; em 2022, passou para a produção londrina, no Sondheim Theatre. Em 2023, cantou «On My Own» no Big Night of Musicals, da BBC, em Manchester, perante 12 mil pessoas — uma noite que ainda considera a sua maior fonte de orgulho.

Entre contratos em Londres, manteve-se ligada a casa. Em 2023, interpretou a Cinderela em Into the Woods, da Pangdemonium, no Singtel Waterfront Theatre; em dezembro desse ano, subiu ao palco do Esplanade para um concerto solidário de regresso a casa, destinado a angariar fundos para jovens artistas de meios desfavorecidos. Em junho de 2024, assumiu o papel de Eliza no Victoria Palace Theatre — também a primeira singapurense a fazê-lo — e ficou em cena até março de 2025. Depois, Éponine regressou, desta vez na estrada, com Les Misérables The Arena Spectacular, o espetáculo de concerto que assinalou o 40.º aniversário e a levou até ao Japão e a Xangai.

O rótulo que a projetou também a limitou. As manchetes sobre a «primeira singapurense» transformaram dois papéis secundários em notícias de interesse nacional; o próprio The Straits Times chamou a Éponine e Eliza «papéis secundários cobiçados». Ambas são mulheres que veem o homem no centro da história escolher outra pessoa e, durante anos, Ong foi escalada — e chamada a substituir outras intérpretes — como a voz dessa perda. Tem procurado contrariar a versão mais sentimental dessa imagem. «Não queria que ela fosse bonita», disse sobre Éponine, defendendo que «On My Own» fala menos de um amor não correspondido do que de uma rapariga a perceber que «o único gesto de bondade na sua vida já não lhe pertence». Em junho, foi mais longe e afirmou que não voltaria a interpretar Éponine. A mudança tem custos. Na crítica ao seu concerto a solo, Honest, o crítico do Bakchormeeboy considerou que os arranjos minimalistas de teclado não conseguiam suportar o peso de «Burn», de Hamilton, e que, no final da noite, o cansaço já era visível. A mesma crítica reservou os elogios mais calorosos para a canção que dá título ao concerto, um original escrito por Ong após uma separação, em 2024, com um arranjo depurado, de inspiração blues e acústica.

A primeira prova concreta da nova direção chegou no verão. O regresso a casa de Éponine já tinha enchido 56 sessões no Sands Theatre, entre março e maio, com Lea Salonga no papel de Madame Thénardier — uma cantora que Ong considera «a referência, sobretudo entre os artistas asiáticos». Depois, a Singapore Repertory Theatre deu-lhe, pela primeira vez, o papel principal: Elle Woods em Legally Blonde, no Esplanade Theatre, a partir de 29 de julho. O espetáculo, encenado por Kate Golledge, contou com um elenco inteiramente singapurense, uma estética K-pop e Nathan Hartono no papel de Warner. O Bakchormeeboy elogiou-a por «nunca tratar Elle como se fosse pouco inteligente»; a BroadwayWorld escreveu que só a sua «impecável “So Much Better” já vale o preço do bilhete». Em maio, a Forbes incluíra-a na lista 30 Under 30 Asia, na categoria de entretenimento e desporto.

Ong tem falado abertamente sobre o caminho que quer seguir. Cresceu a ouvir R&B e pop, «mas não é por isso que sou conhecida», e fala em escrever mais canções suas, talvez um álbum de teatro musical, e em experimentar dobragens, televisão e representação para cinema. Londres continua a ser a sua base. Já descreveu as idas e vindas entre Londres e Singapura como algo que a faz sentir «um pouco como uma agente dupla», com a família que escolheu numa cidade e a família de sangue na outra.

O resto do ano põe essa ideia à prova em duas frentes. A 30 de novembro, assume o papel principal em AYLA, um novo musical do compositor Gianluca Cucchiara e da produtora Giovanna Romagnoli, apresentado num único concerto semi-encenado no The Other Palace, em Londres, depois de um álbum conceptual em que também canta. A 17 e 18 de dezembro, estará à frente da Singapore Symphony Orchestra no Esplanade Concert Hall, acompanhada pela primeira vez por cerca de 80 músicos. O concerto chama-se On My Own. A noite londrina é mais importante: AYLA é o primeiro papel principal que vai assumir e que ninguém interpretou antes dela.

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