Desporto

Nick Kyrgios acusa positivo de cocaína: o regulamento que gozou pode ser a sua salvação

Jack T. Taylor

Durante anos, Nick Kyrgios traçou sempre a mesma linha na areia — e fê-lo em voz alta. Podia partir uma raquete, entregar um set, insultar um árbitro, entrar em guerra com metade do balneário — e nada disso, insistia, fazia dele um batoteiro. Uma coisa era teatro. Doping era um país completamente diferente. Nomeou-se a si próprio guarda de fronteira e verificava os documentos de todos os outros.

Agora é ele quem está a ser mandado parar na passagem. Kyrgios foi provisoriamente suspenso depois de acusar positivo a um metabolito de cocaína, e cabe agora ao desporto que repreendeu época após época decidir o que acontece a seguir. O homem que classificou a integridade do ténis como «horrível», que disse que dois números um mundiais apanhados em casos de doping eram «repugnantes para o nosso desporto», que se queixou de que tudo tinha sido «tratado de forma horrível», está agora dentro da máquina que jurava estar viciada.

Eis a parte que as manchetes do escândalo ignoram. No universo antidopagem, a cocaína não é aquilo que Kyrgios condenou com tanta veemência. É um estimulante proibido em competição, mas classificado como uma «substância de abuso» — uma droga recreativa, não uma substância que melhora o desempenho. O que significa que a sua própria defesa já foi escrita por ele, em voz alta, muito antes de alguma vez precisar dela: partir uma raquete, disse uma vez, não é nada comparado com fazer batota e tomar drogas que melhoram o desempenho. Falava de outros jogadores. Afinal, estava a descrever a distância entre aquilo que condenava e aquilo que fez.

Essa distinção não é apenas retórica. Segundo o código, um atleta que consiga provar que a substância foi tomada fora de competição e nada teve a ver com o desporto pode enfrentar uma sanção de apenas três meses, e não os quatro anos que a cobertura alarmista continua a citar. O regulamento que Kyrgios ridicularizou como defeituoso e brando contém, nas letras pequenas, a clemência que poderá poupá-lo. Se a International Tennis Integrity Agency lhe aplicar uma suspensão curta, estará a exercer precisamente a discricionariedade contra a qual ele se insurgiu quando foi concedida a Jannik Sinner e Iga Swiatek.

Os factos são restritos e não estão em disputa. A amostra foi recolhida no ATP 250 de Maiorca, a 22 de junho; um laboratório da Agência Mundial Antidopagem confirmou a presença de benzoilecgonina, um metabolito de cocaína, a 17 de julho; a suspensão provisória entrou em vigor a 4 de agosto. Kyrgios não recorreu. Por agora, não pode jogar, treinar ou assistir a qualquer evento sancionado, estando também impedido de competir a nível nacional na Austrália. Num comunicado, chamou-lhe «um enorme erro», assumiu «total responsabilidade» e admitiu ter-se sentido «desamparado e sozinho» ao longo dos anos de lesões que esvaziaram a sua carreira.

E é aí que reside a verdadeira dimensão deste caso — não numa tabela de rankings. Em termos competitivos, a suspensão custa a Kyrgios quase nada, porque já quase nada restava. Está classificado fora dos primeiros novecentos. Disputou quatro encontros de singulares este ano. A última vez que foi verdadeiramente relevante num court foi na final de Wimbledon de 2022, e uma sucessão de lesões no joelho e no pulso transformou tudo o que se seguiu no rumor de uma carreira. Não se pode deixar em terra um avião que nunca sai do hangar.

O que o teste realmente ameaça é a única coisa que lhe restava: o megafone. Kyrgios reconstruíra-se como a consciência sem filtros do ténis, o único homem disposto a dizer que o desporto vigia as suas estrelas com um piscar de olho. Era um papel real e, por vezes, necessário. Exigia, acima de tudo, que permanecesse do lado limpo da sua própria linha. Já não está lá.

Assim, o acerto de contas não é o de Kyrgios. É o do sistema. Aplicar todo o peso do regulamento ao seu crítico mais ruidoso parecerá um ajuste de contas; conceder-lhe discretamente a suspensão curta permitida pelo código provará toda a sua tese — de que o ténis se dobra perante o nome certo — usando o seu próprio caso como prova. De uma forma ou de outra, da próxima vez que um campeão acusar positivo e Kyrgios pegar no telefone, as palavras já não estarão lá. Gastou-as todas antes de precisar delas.

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