Críticas

Futebol em Apuros é um Space Jam de bolso que só acerta quando aposta na tolice

A animação de Mitch Schauer (2022) junta Zlatan, Rapinoe e "Weird Al" numa comédia de monstros.
Martha O'Hara
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A caixa chega às mãos de Zlatan Ibrahimović e ele abre-a de bom humor: «Uma prenda! O que será? Espero que seja um jetpack!», como regista o Decider. Lá dentro está uma bola que se abre num clarão verde fluorescente, e dela sai uma lesma que guincha. Segundo o High on Films, o bicho morde o rabo de cavalo do craque e transforma-o num mutante verde. Enquanto os poderes se esvaem, Zlatan ainda se queixa de que aquele é um equipamento novo, o que o Decider cita como a fala mais memorável do filme. É uma piada de quem já perdeu a cabeça e não se apercebeu. Realizado por Mitch Schauer, Futebol em Apuros tem 73 minutos de berreiro, gosma e pancadaria, e assume-os todos sem pudor.

O ponto de partida é simples. Uma gosma verde sai de bolas de futebol, transforma-se em lesmas monstruosas e funde-se com o corpo das vítimas, como descreve o Common Sense Media. Por trás disto está o cientista «Weird Al» Yankovic, que quer roubar o talento dos melhores jogadores do mundo. Quem tenta travá-lo são Zlatan, Megan Rapinoe e quatro fãs que, segundo o ArtsFuse, têm entre 10 e 12 anos. O High on Films conta como chegam ao ídolo: empilhados aos ombros uns dos outros, para passarem por um adulto alto. Lá dentro, Zana mostra as suas defesas de guarda-redes, Nautai faz toques de bola, e o grupo apresenta-se como os Creature Catchers, um serviço de controlo de pragas. É uma forma económica de pôr miúdos no meio de uma história de monstros, e o filme não procura outra.

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O tom vem do desenho animado clássico, e o ArtsFuse acerta quando fala numa tradição de comédia pastelão ao estilo Looney Tunes. O site chama ao filme um festival de disparates e cita a piada do locutor que anuncia quem será o maior All-Star da história da All-Star Cup, uma graça que, nas palavras do crítico, fica mais engraçada de cada vez que reaparece. Concordo. O filme diverte-se a ser parvo de propósito e, nesses momentos, funciona. Zlatan, que segundo o ArtsFuse se diverte a dar voz a uma versão exagerada e narcisista de si próprio, sempre pronta a exibir-se, até para quatro fãs, dá o ritmo. O mesmo texto diz que os miúdos são a parte mais monótona da história, e é difícil discordar. Alguém tem de fazer de escada cómica, mas os quatro fãs acabam por ser os que menos graça têm num filme onde o ídolo vaidoso rouba todas as cenas.

Quem aproveita o espaço é Yankovic. O Decider chama-lhe a verdadeira estrela do filme, um profissional a tirar o máximo de uma situação tola, que mastiga o cenário animado no papel de vilão. A ressalva do mesmo texto também procede: não é a melhor interpretação dele do mês, já que a biografia Weird, no Roku Channel, leva vantagem. O ArtsFuse nota que o cientista parece uma versão mais nova do próprio humorista e que Yankovic, sempre orgulhoso do seu absurdo, aceita interpretar uma versão fictícia de si mesmo obcecada em dominar o futebol. O motivo? «Quem sabe e quem quer saber?», resume o crítico, e o filme nem tenta responder. Mais à frente também o próprio Yankovic se torna monstro, como lembra o Common Sense Media, e a história ganha energia quando o vilão passa a vítima da própria invenção.

O problema está em quem vai ver. O Decider considera que o humor e o tom só devem agradar a crianças até aos 10 anos, mas o filme apoia-se na familiaridade com jogadores e celebridades que o público dessa idade provavelmente conhece mal. A isto junta-se a pressa de enfiar o máximo de frases de efeito possível em 73 minutos. O Decider compara a receita a um Space Jam com futebol, com um cientista louco no lugar dos extraterrestres. O ArtsFuse, por seu lado, trata Space Jam 2 como uma catástrofe e elogia Futebol em Apuros precisamente por ficar longe da pretensão. O mesmo site admite que o aspeto visual merecia mais tempo e atenção, e a ressalva é justa: a animação não desonra o conjunto, mas também não impressiona.

Há ainda o susto. O Common Sense Media considera o filme assustador e violento de mais para o público a que se destina. Os mutantes têm dentes irregulares e olhos furiosos e avançam a rosnar contra a câmara. Há um homem que ataca outro com uma serra de osso giratória, uma lesma que morde a cabeça de um cãozinho (que fica bem) e um chefe final entre aranha e escorpião, com duas fileiras de dentes na boca escancarada e um olho suspenso ao fundo da garganta. Tudo isto divide espaço com uma piada recorrente sobre flatulências, e o contraste incomoda: uma criança pequena pode rir-se de um peido e, minutos depois, esconder a cara na almofada.

No fim, o filme é desarrumado e barulhento, com um vilão que justifica a sessão e quatro heróis que não chegam lá. Funciona melhor para quem já tem idade para não se assustar com os monstros e paciência para uma farsa sem rede, e é uma sessão curta e inofensiva para esse público. Para os mais pequenos, os monstros e a serra de osso pesam mais do que as gargalhadas.

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Fotos: The Movie Database (TMDB)

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