Críticas

O Último Mercenário: Van Damme goza consigo próprio numa comédia de ação desarrumada mas simpática

A comédia de ação francesa de David Charhon (2021) prefere o disparate à coerência.
Martha O'Hara
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Richard Brumére, o agente secreto lendário interpretado por Jean-Claude Van Damme, abandona o esconderijo e regressa a França para ajudar o filho que nunca conheceu a safar-se de sarilhos. É a base de O Último Mercenário, comédia de acção realizada por David Charhon, e essa base é mais promissora do que o edifício construído sobre ela. O filme tem boas ideias, mas distribui-as sem grande critério e acaba a oscilar entre o simpático e o disperso.

Charhon assina o argumento com Ismael Sy Savane e mistura espionagem com comédia familiar. Pôr um brutamontes veterano frente a frente com um filho adulto que nem sabe quem ele é dá o melhor material do filme, porque aí há um conflito simples e humano. O resto do enredo é menos feliz. Archibald al Mahmoud (Samir Decazza) torna-se alvo do governo quando lhe cortam o dinheiro que o sustentava e desaparece a imunidade que o protegia, e a primeira parte do filme gasta demasiado tempo a explicar esta engrenagem antes de deixar Richard entrar verdadeiramente na história. Quando entra, o ritmo melhora, mas o tempo perdido não se recupera.

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O elenco é a parte mais fiável. Van Damme traz a presença física habitual e uma vontade de rir de si próprio que assenta bem no tom, embora o carisma esbarre num argumento previsível. Alban Ivanov, no papel de Alexandre Lazare, é quem arranca mais gargalhadas, com um humor solto que destoa do resto. Decazza fica com o papel ingrato do filho atónito e dá-se melhor quando contracena com a estrela. Assa Sylla (Dalila) e Éric Judor (Paul Lesueur) parecem presos a personagens pouco definidas. Patrick Timsit, como o comandante Jouard, e Miou-Miou, como Marguerite, completam um conjunto que merecia piadas mais afiadas. Valérie Kaprisky é a ministra Sivardière, e o elenco inclui ainda Djimo Salim (Momo) e Nassim Lyes (Simyon Novak).

O dispositivo chamado Big Mac, que avaria pacemakers, é o género de objecto de farsa de espionagem que poderia render tanta piada como tensão. O filme nunca decide qual das duas coisas pretende. Umas vezes trata o aparelho como brincadeira, outras insiste em que é uma ameaça séria, e essa indecisão contamina o humor em geral: algumas piadas funcionam, outras parecem empurradas à força, e as reacções exageradas dos agentes do governo a situações absurdas cansam mais do que divertem.

O núcleo emocional está na relação entre pai e filho. A mãe de Archibald é ex-mulher de Jouard, amigo de Richard, o que dá à história um triângulo que o argumento aproveita pouco. Richard resgata o rapaz, mas não revela que é o pai e apresenta-se como George. Quando a verdade vem ao de cima, Archibald sente-se traído, e o filme tenta fazer desse choque o seu coração. Funciona em parte. Faltam cenas mais longas entre os dois, e o argumento prefere regressar à correria: Richard rapta a ministra Sivardière, que alinha de bom grado, e Jouard lembra que o velho amigo ainda tem contas a prestar pela operação Cup-and-Ball. O desfecho, em que Richard recorre ao Big Mac, foge e promete estar presente na vida do filho, é competente e previsível. O filme não sabe se quer ser uma história comovente sobre paternidade ou uma comédia parva de pancadaria, e acaba por ser um pouco de ambas, sem convicção.

A realização de Charhon é funcional e pouco inspirada. Conduz a história com clareza suficiente, mas não deixa assinatura própria, e parece mais interessada em aproveitar o apelo nostálgico de Van Damme do que em construir uma narrativa coesa. A acção cumpre o propósito de entreter sem se destacar, e a comédia raramente se arrisca para lá do previsível.

A recepção crítica dividiu-se. No Rotten Tomatoes, 58% de 26 críticas são positivas, com média de 5,3 em 10. O Metacritic atribuiu-lhe 48 pontos em 100, com base em nove críticos, o que o site classifica como críticas mistas ou medianas. O Último Mercenário estreou na Netflix a 30 de Julho de 2021, e os números condizem com o que se vê no ecrã: um filme que cumpre o dever sem convencer.

Para quem tem apreço por Van Damme, serve uma sessão sossegada em casa. Para quem espera uma comédia de acção que se aguente sozinha, fica aquém. Os temas da paternidade tardia e da segunda oportunidade estão lá, mas ficam à sombra das piadas e das perseguições. Sobra um passatempo de ocasião, com um bom sorriso aqui e ali e muito pouco para além disso.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

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