Música

A t-shirt «Free Palestine» do cantor country Zach Bryan no Gillette Stadium põe à prova o dono dos Patriots, Robert Kraft

Noah Brandt
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Zach Bryan não disse uma palavra sobre o assunto. Tudo o resto naquela primeira noite no Gillette Stadium decorre daí. Entrou em palco com uma T-shirt preta onde se lia «Free Palestine», tocou o seu alinhamento e, segundo todos os relatos do concerto, não voltou a mencionar a camisola entre músicas.

A maioria da cobertura interpreta a camisola como uma provocação do cantor country a Robert Kraft, proprietário dos Patriots e do estádio, que semanas antes impedira Macklemore de atuar no mesmo recinto. Essa leitura faz sentido, mas reduz Bryan a um figurante na luta de outra pessoa. A história mais reveladora é a dele: a de um compositor que, há um ano, insistia em não pertencer a nenhum dos lados e que agora escolhe uma peça de roupa em vez de um discurso, precisamente no palco cujo proprietário acabara de tirar outro artista do cartaz.

Comecemos pelo que Macklemore fez, porque é esse o contraste que importa. Na primeira parte do concerto de Ed Sheeran no MetLife Stadium, em Nova Jérsia, conduziu o público em «Free Palestine», projetou imagens de Gaza no ecrã atrás de si e interpretou «Hind’s Hall», a sua canção de protesto sobre a ocupação estudantil da Universidade de Columbia. A resposta de Kraft invocou as «recentes ações» de Macklemore, o «material partilhado em palco durante os concertos de Ed Sheeran em Nova Jérsia» e um «historial mais vasto de retórica e imagens antissemitas», concluindo que a sua atuação no Gillette «ultrapassaria esse limite». Macklemore afirma que Kraft mobilizou outros proprietários de estádios para lhe impor um ultimato, uma alegação a que o comunicado de Kraft não respondeu, como assinalou a Rolling Stone. Sheeran disse que a decisão de o afastar partiu do promotor. Finneas, Aaron Rowe, Lukas Graham e a banda de acompanhamento de Sheeran, Beoga, abandonaram todos a digressão.

Macklemore construiu um momento de palco completo: palavras, imagens e uma canção. Bryan usou um único adereço e manteve-se em silêncio. O comunicado de Kraft insistiu bastante no material «partilhado em palco», e um slogan vestido sem qualquer discurso põe essa formulação à prova.

O pormenor mais marcante surgiu atrás da bateria. Segundo a Consequence, o baterista Nate Head usou uma camisola da Palestina com o nome Hind Rajab e o número cinco nas costas, enquanto Noah Le Gros vestiu uma camisola verde com a palavra «Palestine» estampada. Hind Rajab era uma menina palestiniana de cinco anos, morta na Cidade de Gaza em janeiro de 2024. Os manifestantes de Columbia deram o seu nome ao Hamilton Hall, e Macklemore intitulou a sua canção em homenagem ao edifício. Assim, o vestuário da banda citava, pelo nome, a canção que esteve na origem de toda a polémica. Nenhuma das notícias que lemos estabelece essa ligação, mas, naquele palco, é difícil interpretar a camisola de outra forma.

Há ainda o percurso do próprio Bryan. Em outubro de 2025, publicou um excerto de «Bad News» com o verso «O ICE vai deitar a tua porta abaixo». Um porta-voz do Departamento de Segurança Interna disse-lhe para «se ficar por Pink Skies, pá», e a Casa Branca emitiu um comunicado a atacá-lo. A resposta de Bryan foi um apelo à moderação: «Não estou de nenhum destes lados radicais», escreveu, acrescentando: «De esquerda ou de direita, somos todos uma só ave e americanos», e que «todos os que estão a usar isto como arma só estão a provar o quão devastadoramente divididos estamos». A canção foi lançada em janeiro, no álbum «With Heaven on Top».

Um ano depois, o artista que passou aquela semana a recusar escolher um lado traz agora um deles estampado no peito, no recinto onde as consequências eram maiores. Continua sem explicar a decisão, e, segundo a The Hollywood Reporter, a sua conta no X foi desativada. Para um compositor cujos discos assentam em dizer as coisas sem rodeios, o silêncio foi a escolha mais eloquente da noite.

A logística também importa, porque a história ainda não terminou. A camisola apareceu na sexta-feira, 2 de outubro, na primeira de duas noites no Gillette integradas na digressão With Heaven On Tour. A segunda, no sábado, 3 de outubro, encerra a digressão. Kraft ainda não se tinha pronunciado publicamente quando foram publicadas as primeiras notícias, e os representantes de Bryan e do estádio não responderam aos pedidos de comentário da Rolling Stone e da Billboard. A reação dos fãs dividiu-se rapidamente; a Fox News citou publicações que exigiam que Kraft cancelasse o segundo concerto para aplicar «o mesmo critério que aplicou a Macklemore».

Desde então, Macklemore comprometeu-se a doar um milhão de dólares a organizações de apoio à Palestina e desafiou Kraft a igualar o valor. Kraft afirmou que Sheeran já lhe pedira para igualar o seu próprio compromisso humanitário de dois milhões de dólares, acrescentando que «todas as vidas merecem ser protegidas». Os concertos de Sheeran no Gillette, previstos para o final de setembro, foram cancelados devido ao mau tempo. A digressão Free Palestine Tour, de Macklemore, com datas em Dublin, Paris e Londres entre 26 e 30 de outubro, esgotou.

O concerto de encerramento de sábado realiza-se no estádio de Kraft. Se a camisola voltar a aparecer e o espetáculo avançar, o Gillette terá mostrado que o seu limite dizia respeito ao microfone, não à mensagem. Todos os artistas que forem contratados para atuar ali saberão exatamente qual é esse limite.

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