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Kenneth Walker III, o MVP do Super Bowl que Seattle deixou sair e Kansas City contratou

Penelope H. Fritz
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Kenneth Walker III
Kenneth Walker III
Photo: Time2Football / CC BY 4.0, via Wikimedia Commons
Nascimento20 de outubro de 2000
Memphis, Tennessee, United States
OcupaçãoJogador de futebol americano (running back)
Prémios individuaisMVP do Super Bowl · Campeão do Super Bowl · Prémio Doak Walker · Prémio Walter Camp · All-American por unanimidade

Há uma maneira muito própria de Kenneth Walker III concluir uma corrida. Aguenta o primeiro embate sem cair, e o segundo defensor costuma chegar quando o primeiro já está no chão. Os defensores de Seattle conhecem o movimento melhor do que ninguém, porque passaram anos a tentar placá-lo nos treinos e, na noite de domingo, montaram toda uma estratégia à sua volta. A defesa de Mike Macdonald lançou jogadores contra a bola em vagas sucessivas, e o running back que saíra do Super Bowl como o jogador mais valioso saiu do Lumen Field com quase nada.

A carreira de Walker acabou por se resumir a esta discussão. Os Seahawks conquistaram um título com ele e, poucas semanas depois, decidiram que mantê-lo custaria mais do que substituí-lo. Kansas City discordou, e mostrou-o com dinheiro a sério. Desde então, as corridas que faz semana após semana têm sido vistas como argumentos a favor de um ou de outro lado numa velha disputa da liga: vale a pena pagar a um running back?

Walker nasceu a 20 de outubro de 2000, em Memphis, e cresceu em Arlington, um subúrbio na periferia nordeste da cidade, onde jogou dos dois lados da bola pela Arlington High School. Os serviços de recrutamento avaliaram-no como uma promessa de três estrelas, e a maioria dos grandes programas não lhe prestou atenção. Wake Forest foi a única universidade de uma conferência de topo a apresentar-lhe uma proposta. No segundo jogo universitário, recebeu a bola na sua própria linha de quatro jardas e correu 96 jardas, naquela que foi a corrida para touchdown mais longa da história do programa.

Depois disso, os números estagnaram. Correu 579 jardas na primeira época e exatamente outras tantas na seguinte, na qual marcou 13 touchdowns, integrado num ataque assente no slow mesh, uma opção entre corrida e passe em que o running back é muitas vezes uma falsa pista, cuja função é mostrar ao quarterback o que a defesa tenciona fazer. Sentia-se limitado por esse sistema. Em janeiro de 2021, transferiu-se para a Michigan State.

A mudança transformou uma falsa pista no centro do ataque. No primeiro jogo pelos Spartans, correu 264 jardas e marcou quatro touchdowns. A 30 de outubro desse ano, frente à Michigan, então sexta classificada, fez 197 jardas e cinco touchdowns em 37-33, numa reviravolta em East Lansing que o tornou conhecido em todo o país. Terminou a época com 1.636 jardas e 18 touchdowns, venceu o Doak Walker Award, atribuído ao melhor running back do país e conquistado pela primeira vez por um jogador da Michigan State, recebeu também o prémio Walter Camp Player of the Year, foi escolhido por unanimidade para a equipa All-American e ficou em sexto lugar na votação para o Heisman. Abdicou do último ano de elegibilidade universitária.

Seattle escolheu-o na segunda ronda do draft de 2022, na 41.ª posição, depois de uma pequena farsa na noite do draft: tinha o telemóvel em modo Não incomodar, não atendeu as chamadas dos Seahawks e, quando ligou de volta, a pessoa que atendeu não sabia quem ele era. Na época de estreia, correu 1.050 jardas e marcou nove touchdowns, juntando-se a Curt Warner como o único rookie dos Seahawks a ultrapassar as 1.000 jardas. Recebeu mais votos de primeiro lugar do que Garrett Wilson, dos Jets, para o prémio de Rookie Ofensivo do Ano — 19 contra 18 —, mas perdeu na contagem total de pontos, ao abrigo do novo sistema de votação por classificação.

As dúvidas em relação a Walker nunca tiveram que ver com o talento. Tinham que ver com a durabilidade e o perfil. Na segunda época, fez 905 jardas. A terceira foi interrompida por lesões e terminou na lista de lesionados, devido a um problema no tornozelo, em dezembro de 2024, depois de somar 573 jardas. Mesmo em 2025, a primeira época em que foi titular nos 17 jogos, correu 1.027 jardas, mas marcou apenas cinco touchdowns em corrida, porque Zach Charbonnet ficou com a maioria das tentativas perto da linha de golo. Para uma direção que tem de pagar a um quarterback e a uma defesa, aquele perfil — explosivo entre as linhas das 20 jardas, raramente o finalizador das jogadas e muitas vezes lesionado — parecia ser algo que um grupo de running backs poderia compensar. A leitura popular da saída de Walker como um erro ignora esse historial. Seattle tinha acompanhado quatro épocas suas, e apenas uma delas chegou ao fim sem interrupções.

Depois, o grupo desfez-se. Charbonnet rompeu o ligamento cruzado anterior na ronda divisional contra San Francisco, em janeiro, e Walker passou a carregar o ataque: 116 jardas e três touchdowns na vitória por 41-6 desse dia; 111 jardas a partir da linha de scrimmage e um touchdown na vitória de Seattle por 31-27 sobre os Los Angeles Rams, que valeu o título da NFC; e, por fim, 27 corridas para 135 jardas contra New England no Super Bowl LX, ganho por 29-13. Foi eleito MVP, o primeiro running back a receber o prémio desde Terrell Davis, no Super Bowl XXXII.

Seattle optou por não usar a franchise tag, que teria custado cerca de 14,3 milhões de dólares por uma única época, e, em março, Walker chegou a acordo com Kansas City para um contrato de três anos que pode valer até 45 milhões de dólares, com 28,7 milhões garantidos. O contrato foi noticiado como o maior de sempre atribuído a um running back no mercado de agentes livres. O ataque de Andy Reid, construído durante anos em torno do braço de Patrick Mahomes, passou de repente a ter um corredor em quem se apoiar. Walker correu 173 jardas e marcou dois touchdowns contra Denver no primeiro jogo e, no início de outubro, fez um máximo de carreira de 177 jardas em Las Vegas. Assim, juntou-se a Jim Brown e O.J. Simpson como os únicos jogadores com dois jogos de 170 jardas nos primeiros quatro jogos da sua equipa numa época. Foi eleito jogador ofensivo do mês de setembro da AFC e, ao fim de seis semanas, liderava a liga com 665 jardas de corrida, a uma média de 6,3 por tentativa.

Depois veio Seattle. A 25 de outubro, os Chiefs chegaram invictos e saíram derrotados por 20-3. Walker terminou com 36 jardas em 14 tentativas, frente a uma defesa que já leva 36 jogos consecutivos sem permitir que um running back ultrapasse as 100 jardas. Depois do jogo, Macdonald disse que os seus jogadores sabiam que Walker continuaria a escapar aos placadores, por isso a solução era levar mais jogadores até à bola. Segundo os jornalistas locais, Walker foi diretamente para o balneário, sem os cumprimentos habituais ao antigo treinador e aos antigos colegas de equipa — um momento pequeno que ganhou grandes proporções na internet.

Uma noite má não apaga seis semanas boas, nem resolve a discussão. Mostra, isso sim, o que é preciso para o travar: comprometer mais defensores com a corrida do que a maioria das equipas pode dispensar. Os Chiefs jogam em Denver a 1 de novembro, contra a defesa por onde Walker passou a correr em setembro, e a segunda metade da época mostrará se as contas de Seattle ou o dinheiro de Kansas City estavam mais perto da verdade.

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