Música

David Guetta, o DJ parisiense que fez da house a língua franca da pop

Penelope H. Fritz
Adicione-nos no Google
David Guetta
David Guetta
Photo: Parlophone / CC BY 3.0, via Wikimedia Commons
Nascimento7 de novembro de 1967
Paris
OcupaçãoDJ e produtor musical
PrémiosGrammy Award de Melhor Gravação Remix, Não Clássica · Prémio MTV Europe Music por Melhor Eletrónico

Seis vezes. É esse o número de vezes que os leitores da DJ Mag já elegeram David Guetta o melhor DJ do planeta, e ninguém na história da votação o conseguiu tantas vezes: Martin Garrix e Armin van Buuren ficaram nas cinco. O resultado foi anunciado no Top 100 DJs LIVE, dentro do [UNVRS], o hiperclube de Ibiza onde o francês passou as sextas-feiras do verão à frente da Galactic Circus, e a reação dele foi de uma simplicidade desarmante: «Seis vezes, isto já é sério! Sinto-me muito honrado.» É uma coroa estranha para alguém que boa parte do underground da música de dança continua a ver como o homem que vendeu a house à rádio comercial. As duas coisas são verdadeiras. A fricção entre elas é a história toda.

Paris moldou-o muito antes de Ibiza. Pierre David Guetta, que chegou ao mundo a 7 de novembro de 1967, é filho de Pierre Guetta, sociólogo de uma família judaica de origem marroquina, e de Monique, de raízes belgas. Era um adolescente a passar discos no Broad Club quando, em 1987, uma faixa de Farley «Jackmaster» Funk na rádio francesa lhe mudou a ideia do que podia ser uma pista de dança. Um ano depois já organizava as suas próprias noites.

A década de 1990 ensinou-lhe a sala antes do disco. Tocou no Rex, no Le Boy e no Folies Pigalle, assumiu a gestão do Le Palace em 1995 e, mais tarde, a direção artística do Queen. Com Cathy Lobé, com quem casou em 1992, construiu algo mais próximo de uma marca de vida noturna do que de uma carreira de DJ: as festas F*** Me I’m Famous levaram até Ibiza, primeiro no Pacha, uma mistura muito parisiense de glamour e ironia. A lição ficou. Para Guetta, uma noite desenha-se.

YouTube video

Os discos chegaram tarde, e chegaram com um plano. A Gum Productions, fundada com Joachim Garraud em 2001, deu-lhe um parceiro de estúdio; Just a Little More Love, editado pela Virgin em 2002, deu-lhe uma voz, a do cantor gospel norte-americano Chris Willis em Love Don’t Let Me Go. Guetta Blaster trouxe The World Is Mine e Pop Life trouxe Love Is Gone: temas de clube franceses já construídos a pensar na rádio diurna.

Em 2009 abriu-se a porta para o resto do mundo. Guetta coproduziu I Gotta Feeling para os Black Eyed Peas, e o seu próprio álbum, One Love, pôs Kelly Rowland em When Love Takes Over e Akon em Sexy Bitch, ambos números um no Reino Unido. A fórmula era fácil de descrever e difícil de copiar: uma voz R&B ou pop, uma batida contínua em crescendo e uma explosão à escala de festival. A rádio norte-americana, que tratava a música eletrónica como uma curiosidade europeia, adotou-a por inteiro. A Academia de Gravação deu-lhe dois anos seguidos o Grammy de melhor gravação remisturada, por When Love Takes Over e por Revolver, de Madonna, retrabalhado com Afrojack. Seguiu-se Nothing but the Beat, com Titanium, cantado por Sia, e Without You, com Usher, e em 2011 liderou pela primeira vez a lista da DJ Mag.

A década seguinte jogou-se em estádios. Listen deu Lovers on the Sun, outro número um britânico; Hey Mama juntou Nicki Minaj, Bebe Rexha e Afrojack; This One’s for You, com Zara Larsson, foi a canção oficial do Euro 2016, que tocou na cerimónia de abertura em Saint-Denis, o torneio que Portugal acabaria por vencer. Em Ibiza manteve a BIG no Ushuaïa durante seis verões e foi o primeiro DJ com duas residências semanais em simultâneo. 7, editado em 2018 com um segundo disco assinado pelo seu alter ego de clube, Jack Back, continua a ser o seu álbum de estúdio mais recente.

A acusação contra Guetta nunca foi de falta de ofício. É de direção. Para os puristas, foi ele quem pegou numa música nascida em clubes negros e queer de Chicago e Detroit e lhe acrescentou refrões pop até soar a centro comercial. A elite de DJ superestrela que lidera ouve há anos críticas sobre sets pré-gravados em festivais, com deadmau5 entre as vozes mais ruidosas, e em 2023 Guetta respondeu que o seu trabalho é ler o público ao vivo. A venda do seu catálogo gravado à Warner Music em 2021, avaliada pela imprensa entre 100 e 150 milhões de dólares, alimentou a imagem de um artista transformado em ativo financeiro. O debate tecnológico apanhou-o em fevereiro de 2023, quando passou num set uma faixa com uma voz de Eminem clonada por inteligência artificial, lhe chamou «Emin-AI-em», declarou que o futuro da música está na IA e prometeu nunca a editar. A resposta a tudo isto tem sido abrir portas laterais para a credibilidade de clube: Jack Back, o som «future rave» que começou a moldar com o produtor dinamarquês MORTEN em 2019 e, agora, Men Machine.

YouTube video

O segundo fôlego é real. I’m Good (Blue), a releitura de Eiffel 65 com Bebe Rexha em 2022, tornou-se o seu sétimo número um no Reino Unido, o primeiro desde Lovers on the Sun, e chegou ao 7.º lugar da Billboard Hot 100. Em 2023, os BRIT Awards distinguiram-no como produtor britânico do ano, um DJ francês premiado pela indústria britânica, e os leitores da DJ Mag continuaram a votar: 2020, 2021, 2023, 2025. Gravou Supernova Love com o grupo de K-pop IVE em 2024. Em 2026 levou Men Machine, o projeto com o produtor alemão Marten Hørger assente em electroclash, new wave e synth-pop, ao palco Quasar do Coachella a 11 de abril, e editou o EP pela Spinnin’ Records a 15 de maio. Gravou ainda Save Me Tonight com Jennifer Lopez, voltou a juntar-se a Afrojack e Sia em Awake Tonight e uniu-se a Andrea Bocelli, Megan Thee Stallion e EJAE no hino do Mundial da FIFA, DNA (More Than a Game). A 11, 12 e 13 de junho, o espetáculo Ultimate Monolith esgotou três vezes o Stade de France, mais de 240 mil bilhetes, com Armin van Buuren, FISHER e Black Coffee na abertura; terminou a primeira noite em lágrimas. É ainda o primeiro artista a somar 22 números um na tabela norte-americana de passagens dance em rádio da Billboard.

Longe da cabina, Guetta e Cathy divorciaram-se em 2014, depois de dois filhos. A companheira é Jessica Ledon, e os filhos do casal nasceram em março de 2024 e em fevereiro de 2026, o que faz dele pai de quatro.

As próximas datas estão marcadas. Uma estrela no Passeio da Fama de Hollywood, anunciada em julho na turma de 2027 ao lado de Sia, aguarda ainda o descerramento, e o espetáculo Monolith chega à O2 de Londres a 5 de junho de 2027, uma noite esgotada em minutos. Quase um quarto de século depois do primeiro álbum, a pergunta a que Guetta responde já não é se o público vai aparecer. É se o rapaz do Le Palace ainda o consegue surpreender.

Discografia selecionada

  • Just a Little More Love (2002)
  • Guetta Blaster (2004)
  • Pop Life (2007)
  • One Love (2009)
  • Nothing but the Beat (2011)
  • Listen (2014)
  • 7 (2018)

Etiquetas: , , , , ,

Notícias em destaque — David Guetta

Ver todas →

Adicione-nos no Google

Discussão

Existem 0 comentários.