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Jean-Claude Van Damme, o belga que levou três realizadores de Hong Kong até Hollywood

Penelope H. Fritz
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Jean-Claude Van Damme
Jean-Claude Van Damme
Photo: Georges Biard / CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons
Nascimento18 de outubro de 1960
Berchem-Sainte-Agathe, Bruxelas, Bélgica
OcupaçãoAtor, cineasta e artista marcial
Conhecido porO Panda do Kung Fu 2, O Panda do Kung Fu 3, Mínimos 2: A Ascensão de Gru
PrémiosCampeão europeu de karaté · Martial Arts History Museum Hall of Fame · European Professional Karate Association middleweight champion

A cena que mudou a forma como as pessoas falam de Jean-Claude Van Damme não tem pontapés. A meio de JCVD, um filme belga em que interpreta uma versão desgastada de si próprio, apanhada no meio de um assalto a uma estação dos correios de Bruxelas, a câmara eleva-o acima do cenário e ele fala directamente para a objectiva. Fala das drogas, dos casamentos, do dinheiro, da sensação de que os filmes o tinham esgotado enquanto ele se ocupava de ser Van Damme. Chora. Depois, desce de novo para o assalto. Para um homem cuja carreira inteira tinha sido vendida à custa do que as pernas eram capazes de fazer, era um lugar estranho para, finalmente, ser levado a sério.

Essa divisão entre o corpo e o homem atravessa tudo o resto. Os espacates entre duas cadeiras, o pontapé giratório, a disciplina do ballet escondida na estrutura física de um praticante de karaté: Hollywood comprou o corpo e, durante alguns anos, fez dele uma das maiores estrelas de acção do mundo. O que os estúdios nunca compraram foi a pessoa que mais tarde admitiria ter tido um problema com cocaína, recebido um diagnóstico de perturbação bipolar e passado por uma série de casamentos desfeitos. JCVD pôs os dois na mesma imagem, e os críticos que tinham passado uma década a rir-se dos Músculos de Bruxelas viram-se subitamente obrigados a olhar para ele.

O nome que consta do seu registo de nascimento é Jean-Claude Camille François Van Varenberg. Foi registado em Berchem-Sainte-Agathe, na periferia ocidental de Bruxelas, a 18 de Outubro de 1960. O pai, Eugène, era contabilista e também vendia flores; a mãe, Eliana, é flamenga. Van Damme descreveu sem vaidade o rapaz que era: «Eu era um bocado nerd e, fisicamente, não tinha grandes capacidades.» Aos dez anos, o pai inscreveu-o em aulas de karaté Shotokan. Aos doze, entrou no Centre National de Karaté, sob a orientação de Claude Goetz, conquistou um lugar na selecção belga e acabou por alcançar o cinturão negro de segundo dan. Aos dezasseis, começou também a praticar ballet, que estudou durante cinco anos e mais tarde defendeu como um desporto de combate disfarçado: «Se consegues sobreviver a um treino de ballet, consegues sobreviver ao treino de qualquer outro desporto.»

A musculação valeu-lhe o título de Mr. Belgium em culturismo, em 1978, e, no ano seguinte, venceu o campeonato de pesos médios da European Professional Karate Association. Quando deixou a competição, em 1982, o seu registo de full-contact era de dezoito vitórias, todas por KO, e uma derrota. Também tinha vendido flores em restaurantes e pedido dinheiro emprestado para abrir o California Gym, em Bruxelas, um negócio que, no seu auge, rendia quinze mil dólares por mês. Ainda assim, vendeu-o. Recordou que o pai lhe disse que tinha um desportivo, um apartamento lindíssimo e o melhor ginásio da cidade, e lhe perguntou que raio estava ele a fazer.

O que estava a fazer era voar para Los Angeles com o amigo de infância Michel Qissi. Os anos que se seguiram são a parte da história que Van Damme ainda conta em pormenor. Dançou como figurante ao fundo em Breakin’. Trabalhou à porta do Woody’s Wharf, um bar propriedade de Chuck Norris, com quem treinava combate. Conduziu limusinas, deu aulas particulares de karaté e respondia todas as semanas a anúncios de casting publicados na imprensa especializada; numa ocasião, inventou um investidor de Hong Kong só para conseguir pôr os produtores ao telefone. Interpretou um vilão soviético em No Retreat, No Surrender e chegou a ser escolhido para fazer de extraterrestre em Predator, mas abandonou as filmagens ao fim de poucos dias dentro de um fato que considerava insuportável; Kevin Peter Hall ficou com o papel. Quando a Cannon Films finalmente lhe deu um papel principal, segundo o próprio, dormia em carros e garagens.

Esse papel principal foi Força Destruidora, estreado no início de 1988. Custou cerca de um milhão e meio de dólares e, segundo os cálculos do Chicago Tribune no ano seguinte, rendeu aproximadamente cinquenta milhões. A história, apresentada como o relato verídico do soldado norte-americano Frank Dux a combater num torneio ilegal em Hong Kong, pouco importava; o verdadeiro efeito especial do filme era um homem capaz de fazer um espacate completo. Kickboxer – Golpe de Vingança rendeu mais de cinquenta milhões, com um orçamento de três milhões, em 1989. Segundo o realizador Sheldon Lettich, O Legionário provou que Van Damme era mais do que um «tipo do karaté» passageiro; em Duplo Impacto, interpretou gémeos afastados e, em 1992, a Carolco juntou-o a Dolph Lundgren em Universal Soldier, de Roland Emmerich, promovido com um empurrão entre os dois protagonistas em Cannes que foi amplamente entendido como uma manobra publicitária. O filme arrecadou cerca de 102 milhões de dólares em todo o mundo. Timecop, realizado por Peter Hyams em 1994, igualou esse valor e continua a ser o maior êxito da sua carreira como protagonista.

Talvez o seu contributo mais duradouro para essa década tenha sido ter aberto portas. John Woo realizou o seu primeiro filme norte-americano, Perseguição Sem Tréguas, com Van Damme, em 1993. Ringo Lam fez o mesmo com Maximum Risk, três anos depois, e Tsui Hark seguiu-lhe o exemplo com Double Team, ao lado de Dennis Rodman, em 1997. Três realizadores que tinham reinventado o cinema de acção de Hong Kong chegaram a Hollywood através do mesmo belga. Van Damme também se realizou a si próprio em The Quest e protagonizou Street Fighter – A Última Batalha, uma adaptação de um videojogo arrasada pela crítica, mas que, ainda assim, levou o público às salas.

Jean-Claude Van Damme
Jean-Claude Van Damme

A queda foi mais discreta do que a ascensão. Segundo o próprio, a pressão de filmar e promover um filme atrás do outro entre 1993 e 1996 alimentou um hábito de consumo de cocaína que lhe custava até dez mil dólares por semana. A reabilitação não resultou; diz que deixou de consumir de um dia para o outro e que treinou para se libertar do vício. Em 1998, foi-lhe diagnosticada uma perturbação bipolar e, anos mais tarde, no reality show britânico Behind Closed Doors, falou do assunto sem rodeios: «Tenho uma perturbação bipolar extrema e estou a tomar medicação para isso.» Foi detido por conduzir sob o efeito de álcool em 1999. Knock Off foi um fracasso, Legionnaire não chegou às salas de cinema norte-americanas apesar de ter custado 35 milhões de dólares e, depois de Universal Soldier: The Return, Van Damme passou quase uma década sem estrear um filme nas salas dos Estados Unidos. Replicant, In Hell e os filmes dessa fase seguiram directamente para o mercado de vídeo.

É por isso que JCVD teve o impacto que teve em 2008. Mabrouk El Mechri escolheu Van Damme para interpretar Jean-Claude Van Damme, falido e a perder uma batalha pela custódia dos filhos, apanhado do lado errado de um assalto na sua cidade natal. A revista Time classificou a interpretação como a segunda melhor do ano, atrás apenas do Joker de Heath Ledger, depois de já ter escrito que Van Damme merecia «não um cinturão negro, mas um Óscar». No The Guardian, Peter Bradshaw descreveu o monólogo como «um golpe de génio cinematográfico à Godard». A piada recorrente sobre Van Damme era que não sabia representar. O filme argumentava, com a sua total colaboração, que a piada tinha sido feita por pessoas que nunca perguntaram quanto lhe tinha custado dar tantos pontapés.

A história do regresso é mais arrumada do que a filmografia, porém. Hollywood voltou a apropriar-se da sua imagem muito mais depressa do que voltou a apostar no actor. Interpretou o vilão, significativamente chamado Jean Vilain, em Os Mercenários 2, um filme que arrecadou 310 milhões de dólares, e deu voz ao Mestre Crocodilo em Kung Fu Panda 2 e na sua sequela. Um anúncio da Volvo Trucks em que faz o pino-espagatado entre dois camiões em marcha-atrás alcançou 35 milhões de visualizações na primeira semana. Há monumentos em sua homenagem em Anderlecht e na aldeia azeri de Vandam. Em Mortal Kombat 1, emprestou o rosto e a voz a Johnny Cage, personagem que os criadores do jogo tinham modelado à sua imagem em 1992, depois de não conseguirem contratá-lo. Ainda assim, os papéis que lhe eram oferecidos continuavam a chegar através do mercado de filmes directamente para vídeo e de streaming: Enemies Closer, dois reboots de Kickboxer – Golpe de Vingança, The Bouncer e The Last Mercenary, da Netflix. Jean-Claude Van Johnson, da Amazon, produzida por Ridley Scott, levou a ideia de JCVD mais longe, transformando-a numa comédia sobre uma estrela de acção decadente que, em segredo, é um espião; as críticas foram positivas, mas a série foi cancelada após uma temporada. É muito mais vezes citado como meme do que escolhido para protagonista.

Os filmes recentes mostram os dois lados. Em Darkness of Man, lançado em formato digital em Maio de 2024 a partir de uma história que desenvolveu e produziu como produtor executivo, interpreta Russell Hatch, um antigo agente da Interpol que protege em Los Angeles o filho adolescente de um informador, enquanto gangues coreanas e russas disputam as mesmas ruas. Os críticos apontaram falhas ao argumento de James Cullen Bressack, mas vários destacaram a densidade que Van Damme conferiu a um homem cansado, e o JoBlo apresentou o filme como prova de que ainda é capaz de uma grande interpretação. A mesma publicação considerou que quase nada funcionava em Kill ‘Em All 2, lançado mais tarde nesse ano. Na comédia de acção francesa The Gardener, realizada por David Charhon e estreada na Prime Video em Janeiro de 2025, Van Damme interpreta Léo, um jardineiro com capacidades letais que protege um alto funcionário público, interpretado por Michaël Youn, cujo nome foi parar a uma lista estatal de pessoas a eliminar. As críticas dividiram-se, e a Blue Fox assegurou uma estreia limitada em salas norte-americanas nesse mês de Junho.

Em Abril de 2025, um advogado que representa uma alegada vítima apresentou uma queixa-crime junto dos procuradores romenos responsáveis pelo combate à criminalidade organizada, conhecidos como DIICOT, acusando Van Damme de ter mantido contacto sexual, num evento em Cannes em 2015, com mulheres traficadas por uma rede ligada ao empresário Morel Bolea. Os procuradores juntaram a queixa à investigação já em curso sobre essa rede; como os alegados acontecimentos tiveram lugar em França, qualquer processo exigiria autorização do Tribunal de Cassação francês. O seu agente, Patrick Goavec, classificou a acusação como «tão absurda como infundada». Não foi noticiada a apresentação de qualquer acusação formal contra Van Damme.

A sua vida privada raramente se manteve privada. Casou-se cinco vezes com quatro mulheres, incluindo a culturista Gladys Portugues, com quem casou duas vezes: primeiro entre 1989 e 1992 e novamente em 1999; têm dois filhos, Kristopher e Bianca. Do casamento com Darcy LaPier nasceu um filho, Nicholas, e, em 2012, Van Damme reconheceu ter tido um caso com Kylie Minogue durante as filmagens de Street Fighter – A Última Batalha. Em 2020, entrou para o Hall of Fame do Martial Arts History Museum.

Dois projectos apontam agora em direcções opostas. Raid Pacific, apresentado a potenciais compradores no mercado de Cannes em Maio de 2026 pela VMI Worldwide, conta com Van Damme no papel do capitão William Pierce, comandante de um submarino franco-americano que transporta uma unidade de Marines até um posto avançado japonês, nos meses que se seguiram a Pearl Harbor; Steven Luke realiza e ainda não foi definida uma janela de estreia. Separadamente, a A24 contratou Michaela Coel, criadora de I May Destroy You, para escrever e realizar um novo Força Destruidora, sem que tenham sido anunciados o enredo ou o elenco. O facto de um estúdio de cinema de autor ter escolhido reinventar o filme que o revelou diz muito sobre a forma como a obra é hoje encarada; e o homem que em tempos dormiu em carros à porta dos escritórios de casting de Los Angeles sobreviveu a quase todos os que diziam que não duraria um ano.

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