Filmes

The Only Living Pickpocket in New York dá a John Turturro um policial sem uma gota de sangue

A segunda longa-metragem de Noah Segan como realizador opõe um ladrão analógico a uma carteira de criptomoedas
Molly Se-kyung
Adicione-nos no Google

Harry Lehman é muito bom num ofício que já não dá para viver. Rouba carteiras no metro, e as carteiras agora vêm magras: um telemóvel que se pode localizar, uns cartões platina que estarão cancelados antes de ele chegar ao recetador. Um dia, leva do carro de um miúdo rico um pequeno aparelho sem saber o que é. É uma carteira de criptomoedas, o miúdo é herdeiro de uma família criminosa e Harry tem poucas horas para a devolver.

John Turturro interpreta Harry em The Only Living Pickpocket in New York, escrito e realizado por Noah Segan, o ator conhecido sobretudo pela presença constante nos filmes de Rian Johnson, de Brick à saga Knives Out: Todos São Suspeitos. A estrutura é de thriller puro: um prazo, uma dívida, uma família sedenta de vingança. A decisão central de Segan, tal como a descrevem os críticos que já o viram, é manter esse mecanismo e retirar-lhe a arma. A Sony Pictures Classics leva o filme a todos os Estados Unidos esta semana.

YouTube video

Turturro, Buscemi e Esposito, os últimos veteranos de uma cidade

O elenco diz que tipo de policial este filme quer ser. Steve Buscemi é Ben, o dono da loja de penhores que escoa o que Harry rouba. Giancarlo Esposito é Allan Warren, um detetive que conhece bem Harry. Tatiana Maslany interpreta Kelly, a filha de quem Harry está afastado, e Will Price é Dylan, o jovem herdeiro que quer reaver o que é seu. Victoria Moroles é Eve, a filha de Ben, uma craque da informática que trata da parte do mundo que os dois velhos já não sabem ler. Jamie Lee Curtis aparece numa única cena, como chefe mafiosa segundo o IndieWire. Jake Coyle, da agência AP, resumiu assim: «Boa parte do prazer do filme está em ver intérpretes nova-iorquinos tão arquetípicos no seu próprio terreno.»

É essa a tese do elenco. Atores cuja carreira se confunde com a cidade, no papel de pessoas que essa mesma cidade está a expulsar pelo preço.

Turturro, de 69 anos, cresceu em Hollis, no bairro de Queens, e continua a viver em Park Slope. Contou à AP que sempre construiu as suas personagens a partir das pessoas que conhece: «Entrevisto muita gente e tiro-lhes coisas. Eles sabem que o vou fazer.» E, a rir-se da semelhança com Harry, disse que age «como um ladrão na noite». Sobre o ofício, foi preciso: «Toda a habilidade está em a pessoa não dar por nada.» E sobre a cidade: «As pessoas já não olham para nós.» Segundo o IndieWire, preparou-se a roubar membros da equipa e do elenco. A AP refere que o papel o pôs na conversa dos Óscares, o que poderá valer-lhe a primeira nomeação da carreira.

Da companhia de Rian Johnson para a realização

Segan é há duas décadas um secundário habitual de Johnson: Dode em Brick, Kid Blue em Looper – Reflexo Assassino, um papel em Star Wars: Os Últimos Jedi, o agente Wagner em Knives Out: Todos São Suspeitos e participações em Glass Onion, Wake Up Dead Man e Poker Face. A sua primeira longa-metragem como realizador, o filme de vampiros Blood Relatives, foi feita para a Shudder e tinha-o a ele como protagonista. Desta vez fica atrás da câmara. A T-Street, a produtora de Johnson, produz com a MRC, e Johnson é produtor executivo. O IndieWire descreve-o como um filme de orçamento mínimo.

A escolha de realização que o define é uma subtração. «A escolha mais ousada do filme talvez seja aquilo que se recusa a mostrar», escreveu Beandrea July no IndieWire, onde lhe deu um A. «Nenhuma arma é empunhada. Nenhum cadáver se amontoa. A violência existe como pressão e não como espetáculo.» Conta que, quando Harry encontra uma pistola no meio do que roubou, a deita ao lixo. Um ladrão que se recusa a andar armado, num género que costuma acabar com um tiro: é aí que a premissa apresenta o seu argumento.

E esse argumento é sobre valor, não sobre crime. Harry trabalha com regras, escreve July: só analógico, nada de cartões, nada de fraude. A habilidade dele não desapareceu; foi a economia que se mudou para onde as mãos dele não chegam. Tomris Laffly, que o destacou como escolha da crítica na Variety, descreveu-o como um filme que «chora em voz baixa uma época perdida, em que a vida era analógica, e os criminosos também». A carteira de criptomoedas no centro do enredo é a versão mais pura do problema. Harry consegue tê-la na mão, mas não a sabe abrir, nem avaliar, nem sequer dizer o que é.

O que os elogios deixam de fora

As críticas são quase unânimes. O consenso do Rotten Tomatoes fala de «um elegante estudo de personagem que oferece a John Turturro um dos melhores papéis da sua carreira», e o Metacritic dá-lhe 81 com base em 16 críticas. Ainda assim, a voz discordante merece ser lida. O InReview Online chamou-lhe «agradável mas descartável» e defendeu que «o tema não tem qualquer reviravolta»: as piadas de conflito de gerações e o passado de Harry, na opinião desse crítico, são «emprestados de tantos outros filmes que parecem um acrescento». Até July, a sua maior defensora, achou que a banda sonora de inspiração funk «pode soar algo pesada».

Fica ainda uma questão de fundo que a premissa não resolve. Um filme que chora as personagens que desaparecem da cidade, recrutando os atores secundários mais famosos dessa mesma cidade, arrisca-se a fazer da nostalgia o argumento em vez do tema. E o teste comercial mal começou: no primeiro fim-de-semana com números, em seis salas, rendeu 138.657 dólares, segundo o Box Office Mojo. Um policial terno e sem tiroteios não é recebido da mesma maneira em Manhattan e num multiplex do Arizona.

Ficha técnica e estreia

John Turturro as the pickpocket Harry Lehman lifting a phone at a bus door in The Only Living Pickpocket in New York (2026)
John Turturro in The Only Living Pickpocket in New York (2026)

Noah Segan assina o argumento e a realização. A fotografia é de Sam Levy, a montagem de Hilda Rasula e a música de Gary Lionelli. Leopold Hughes, Katie McNeill e Ben LeClair produzem para a MRC e a T-Street, com Johnson, Ram Bergman e Johnny Holland como produtores executivos. No elenco estão também Karina Arroyave, como Rosie, a mulher de Harry, Lori Tan Chinn e Kelvin Han Yee. Tem 88 minutos e nos Estados Unidos está classificado R.

Estreou-se em Sundance a 27 de janeiro de 2026, passou fora de competição pela Berlinale e seguiu para Karlovy Vary, Telluride, Toronto e o Festival de Nova Iorque. A Sony Pictures Classics, que comprou os direitos mundiais depois de Sundance, já o exibe em Nova Iorque e Los Angeles e estreia-o em todos os Estados Unidos na sexta-feira, 30 de outubro de 2026. Em Portugal ainda não há estreia nas salas confirmada. Todo o talento de Harry está em passar despercebido; agora, o filme precisa exatamente do contrário.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

Etiquetas: , , , , ,

Adicione-nos no Google

Discussão

Existem 0 comentários.