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Bryan Cranston: o pai de Breaking Bad foi um filho abandonado pelo pai

Penelope H. Fritz
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Bryan Cranston
Bryan Cranston
Photo: Philip Romano / CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons
Nascimento7 de março de 1956
Hollywood, Los Angeles, California, United States
OcupaçãoAtor e produtor
Conhecido porO Resgate do Soldado Ryan, Drive – Risco Duplo, Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos
Prémios3 Emmy · Globo de Ouro · 2 Tony · Laurence Olivier Award for Best Actor

Bryan Cranston diz que há muito do seu pai em Joe Keller, o fabricante de All My Sons, de Arthur Miller, que forneceu peças de motor defeituosas à Força Aérea em tempo de guerra e deixou que o sócio fosse preso por isso. Cranston interpretou-o em Londres, sob a direção do belga Ivo van Hove, e a confissão diz respeito a mais do que uma personagem.

Hal, o marido frenético e apaixonado de Malcolm in the Middle. Walter White, o professor de química de Breaking Bad que jurava cozinhar metanfetaminas para sustentar a família. O juiz de Nova Orleães de Your Honor, que infringe a lei para proteger o filho. Alguns dos pais mais vistos da televisão americana foram interpretados por um homem cujo próprio pai saiu de casa.

Bryan Lee Cranston, o filho do meio de três, nasceu em Hollywood, em março de 1956, filho de Peggy Sell, atriz de rádio, e de Joseph Cranston, ator e antigo pugilista semiprofissional que nunca conseguiu papéis suficientes para sustentar a família. Joseph saiu de casa quando Bryan tinha 11 anos. As crianças cresceram em Canoga Park, parcialmente criadas pelos avós maternos. Uma década mais tarde, Bryan e o irmão mais velho, Kyle, foram à procura do pai e encontraram-no; os dois homens mantiveram o contacto até Joseph morrer, em 2014.

Representar não fazia parte dos planos. Cranston tirou um curso superior de dois anos em ciências policiais no Los Angeles Valley College e inscreveu-se numa aula de representação como disciplina opcional. «Aos 19 anos, de repente, a minha vida mudou», afirmou. A televisão diurna deu-lhe Douglas Donovan, uma personagem criada para a telenovela da ABC Loving, e o trabalho de dobragem foi preenchendo os intervalos, incluindo vozes de monstros em Mighty Morphin Power Rangers, por cerca de 50 dólares à hora. A partir de 1994, apareceu em Seinfeld no papel de Tim Whatley, o dentista de Jerry.

A personagem que mudou o seu estatuto foi Hal. Durante as seis temporadas de Malcolm in the Middle, a partir de 2000, interpretou um pai que amava a mulher e os filhos com um pânico absoluto e inútil. Realizou episódios e foi nomeado para três Emmys. Vince Gilligan viu algo mais sombrio no mesmo rosto.

Em Breaking Bad, que foi transmitida pela AMC entre 2008 e 2013, Cranston interpretou Walter White, um professor do ensino secundário com cancro do pulmão que começa a fabricar metanfetaminas e insiste, durante cinco temporadas, que o faz pela família. O papel valeu-lhe o Emmy de melhor ator principal numa série dramática em 2008, 2009, 2010 e 2014; ele e Bill Cosby são os únicos atores a receber o prémio durante três anos consecutivos. Juntou-lhe um Globo de Ouro e tornou-se produtor da série. No episódio final, Walt acaba por admitir que o fez por si próprio, porque gostava e era bom naquilo. Hal era um pai incapaz de deixar de pôr a família em primeiro lugar. Walt era um pai incapaz de deixar de dizer que o fazia.

O teatro demonstrou que esta versatilidade não era fruto do acaso. Na Broadway, interpretou Lyndon B. Johnson em All the Way e ganhou o Tony de 2014 para melhor ator numa peça. Trumbo, no papel do argumentista na lista negra Dalton Trumbo, valeu-lhe uma nomeação para um Óscar. Em Londres, foi Howard Beale, o apresentador que está «farto e furioso», em Network, do National Theatre, também encenada por van Hove; a interpretação valeu-lhe o prémio Olivier e, na Broadway, um segundo Tony, em 2019. Na televisão, cocriou Sneaky Pete para a Amazon e protagonizou Your Honor, da Showtime, entre 2020 e 2023.

Nem todos partilharam a sua avaliação sobre os papéis que lhe cabe interpretar. Em The Upside, a versão de Hollywood de um êxito francês, fez o papel de um multimilionário paralisado do pescoço para baixo, contracenando com Kevin Hart, e ativistas pelos direitos das pessoas com deficiência questionaram por que razão o papel não fora entregue a um ator com deficiência. Cranston respondeu que os atores são contratados para interpretar pessoas diferentes de si próprios e perguntou se um ator heterossexual deveria deixar de interpretar um homem gay, embora admitisse que a questão merecia ser debatida. Anos mais tarde, no podcast de Bill Maher, disse que as críticas o tinham surpreendido. A defesa soava pouco convincente quando comparada com a sua própria história: o filho que interpretou em Breaking Bad foi escrito como um adolescente com paralisia cerebral e o papel foi entregue a RJ Mitte, um ator que também tinha a doença.

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Os últimos dois anos foram dos mais preenchidos da sua carreira. Em 2025, ganhou o seu sétimo Emmy, como ator convidado, pela interpretação do magnata dos estúdios Griffin Mill em The Studio, da Apple TV+. Quando a aplicação Sora 2, da OpenAI, permitiu aos utilizadores gerar vídeos com a sua imagem sem consentimento, levou o problema ao sindicato dos atores SAG-AFTRA e, em outubro de 2025, a empresa reforçou as regras relativas à voz e à imagem numa declaração conjunta com o sindicato, Cranston e as principais agências. Seguiu-se All My Sons, no Wyndham’s Theatre, ao lado de Marianne Jean-Baptiste e Paapa Essiedu. A peça ganhou o Olivier de 2026 para melhor reposição; Cranston foi nomeado para melhor ator, mas perdeu para Jack Holden.

Em abril de 2026, Hal regressou. Cranston defendera durante anos o regresso da série e Malcolm in the Middle: Life’s Still Unfair, uma minissérie de quatro episódios na Disney+ centrada no 40.º aniversário de casamento de Hal e Lois, chegou com ele como produtor executivo. A crítica dividiu-se quanto à reposição, mas houve um consenso generalizado em relação aos dois pais. Um mês depois, deu voz a Sebastian, o solitário do rebanho, em The Sheep Detectives, ao lado de Hugh Jackman.

Nada disto corresponde ao plano que descreveu à British GQ em 2023: encerrar a sua produtora, Moonshot Entertainment, e talvez mudar-se para França com a mulher, Robin Dearden, com quem se casou em 1989. Pouco depois, esclareceu que não se ia reformar; queria apenas «carregar no botão de pausa durante um ano» depois de fazer 70 anos, em 2026. No início de outubro, no festival ArtPrize, em Grand Rapids, no Michigan, disse que «não tinha qualquer intenção de parar».

Dez dias depois, a 12 de outubro, RJ Mitte morreu aos 34 anos. Cranston, que o conheceu quando Mitte tinha 14, escreveu que os dois tinham trocado mensagens semanas antes, a tentar combinar uma data para almoçar. Despediu-se com as palavras do pai que interpretara: «Vou ter saudades tuas, filho.»

Vem aí mais um pai. Em Tangles, a adaptação animada de Leah Nelson das memórias gráficas de Sarah Leavitt sobre a doença de Alzheimer da mãe, Cranston dá voz a Rob, marido de Midge, personagem de Julia Louis-Dreyfus. O filme estreou em Cannes, em maio, e deverá ter uma estreia limitada nas salas norte-americanas, para se qualificar para os prémios, antes do final do ano, seguindo-se uma distribuição mais ampla no início de 2027. O homem que tencionava passar este ano afastado do trabalho acabou por preenchê-lo com pais e, a julgar pelo que disse em Grand Rapids, a lista ainda não está completa.

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