Cineastas

Charlie Brooker, o crítico de televisão que acabou a criar Black Mirror para a Netflix

Penelope H. Fritz
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Charlie Brooker
Charlie Brooker
Photo: MTV UK / CC BY 3.0, via Wikimedia Commons
Nascimento3 de março de 1971
Reading, Berkshire, England, UK
OcupaçãoArgumentista, produtor e apresentador de televisão
Conhecido porA Vida, Segundo Philomena Cunk
Prémios5 Emmy · Emmy (compartilhado) · BAFTA · British Press Awards Columnist of the Year

Pergunte-se a Charlie Brooker de onde vem um episódio de Black Mirror e a resposta raramente é um medo. Normalmente, é uma piada. Brooker descreveu as suas premissas como «o pior cenário possível levado ao extremo», o mesmo motor que impulsionava as críticas de televisão, os guias de programação fictícios e os desabafos que o tornaram conhecido, e admitiu que muitas das ideias que acabam em descidas de quarenta minutos ao terror começaram por fazê-lo rir. O porco do primeiro episódio, a aplicação de encontros que faz rodar os parceiros, a mulher cuja vida é transformada numa série de streaming sem o seu consentimento: cada uma é uma piada que continuou depois do momento em que devia ter chegado a punchline.

Essa é a discreta contradição no centro da sua carreira. O argumentista cujo nome se tornou sinónimo de desgraça tecnológica — ao ponto de qualquer notícia inquietante sobre um gadget ser agora classificada como «muito Black Mirror» — passou as primeiras duas décadas na comédia e nunca chegou realmente a deixá-la. A sua próxima série para a Netflix é, segundo a própria apresentação, «uma comédia absurda disfarçada de thriller policial incrivelmente sério». Chama-se Blackmere. O nome é suficientemente próximo da sua obra mais famosa para que a semelhança só possa ser uma piada, e parece que esse é precisamente o objetivo.

Brooker é argumentista, produtor, apresentador e antigo colunista, e trabalhou em quase todos os cantos dos meios de comunicação britânicos sem se instalar confortavelmente em nenhum deles. Fez críticas de videojogos, desenhou cartoons, inventou um falso site de programação televisiva, escreveu durante uma década sobre televisão para o The Guardian, coescreveu uma sitcom com Chris Morris, apresentou uma série de programas de crítica na BBC Four e na BBC Two, criou um drama de zombies passado dentro de Big Brother e, depois, construiu uma série antológica que passou do Channel 4 para a Netflix e se tornou uma das produções mais duradouras da plataforma. Também criou Philomena Cunk, a apresentadora de documentários mais alegremente ignorante da televisão.

Uma infância quaker e uma dissertação que ninguém aceitou

Nasceu Charlton Brooker em Reading, no condado de Berkshire, a 3 de março de 1971. O nome tem origem numa sitcom. Os pais eram fãs de Bewitched e deram-lhe o nome de uma personagem que aparecia num único episódio da série; à irmã, Samantha, deram o nome da protagonista. Cresceu em Brightwell-cum-Sotwell, uma aldeia no sul de Oxfordshire, num lar quaker que descreveu como «descontraído», e continua a considerar-se quaker por causa dessa educação, apesar de ser ateu. Contribuiu para The Atheist’s Guide to Christmas sem ver qualquer contradição entre os dois rótulos.

O instinto cómico manifestou-se cedo. Ainda adolescente, escrevia e desenhava para a Oink!, a irreverente revista de banda desenhada infantil britânica do final dos anos 1980, o que lhe confere a distinção invulgar de ter sido publicado numa revista dirigida à sua própria faixa etária. Frequentou a Wallingford School e, depois, a Polytechnic of Central London — que se tornou a University of Westminster no último ano do curso —, onde estudou estudos dos media. Não se licenciou. Segundo o próprio, o problema foi a dissertação, sobre videojogos, um tema que os orientadores não consideravam adequado a um estudo sério. Três décadas depois, os videojogos são um dos meios mais estudados nos cursos universitários, e Brooker viria a apresentar uma história dos jogos para o Channel 4.

As suas referências cómicas são fáceis de reconhecer no trabalho: Monty Python, The Young Ones, Blackadder, Vic Reeves e, acima de todos, Chris Morris, o satirista cujas paródias impassíveis dos noticiários marcaram uma geração de argumentistas de comédia britânicos. Brooker acabaria por escrever com Morris antes de fazer 35 anos.

Do balcão de uma loja à PC Zone

Antes do jornalismo, houve o retalho. Brooker trabalhou na secção de videojogos da Music and Video Exchange, uma loja de artigos em segunda mão em Notting Hill Gate, no oeste de Londres. Quando alguns funcionários saíram para criar o próprio negócio, foi com eles. Esse negócio era a CeX, a cadeia de lojas de eletrónica em segunda mão que hoje tem estabelecimentos por todo o Reino Unido e no estrangeiro. Brooker trabalhou na primeira loja, desenhou os anúncios em cartoon e criou o logótipo — um facto que surpreende quem já entregou uma consola antiga ao balcão de uma CeX sem saber quem desenhou o letreiro por cima dele.

Esses cartoons abriram-lhe as portas da imprensa. Alguns foram publicados na PC Zone, uma revista britânica de videojogos para computador, e os editores convidaram-no a escrever. Em meados e no final dos anos 1990, fez críticas de jogos, incluindo System Shock e Fallout, e desenvolveu uma voz a meio caminho entre a do crítico e a do provocador. Desenhou uma tira de banda desenhada chamada «Cybertwats» e manteve uma coluna de cartas, «Sick Notes», na qual insultava os leitores que lhe escreviam e oferecia um prémio de 50 libras à melhor carta.

Um cartoon de uma página causou problemas a sério. Apresentado como um anúncio ao «Jardim Zoológico da Crueldade de Helmut Werstler», um parque temático imaginado por um psicólogo fictício onde as crianças podiam descarregar os seus impulsos violentos nos animais em vez de noutras pessoas, incluía fotografias manipuladas de crianças a atacar macacos, texugos e um orangotango. A piada visava originalmente o número de animais mortos nos jogos de Tomb Raider e tinha como título inicial «O Jardim Zoológico da Crueldade de Lara Croft», antes de ser alterado por razões legais. Muitos quiosques britânicos retiraram a revista das bancas. Foi um primeiro sinal de um padrão que se repetiria: Brooker nem sempre tinha a mesma noção que os outros dos limites de uma piada. Em outubro de 2008, quando a PC Zone chegou ao número 200, foi convidado a voltar, juntamente com outros antigos colaboradores, e fez uma crítica a Euro Truck Simulator.

TVGoHome e os primeiros trabalhos em televisão

De 1999 a 2003, Brooker manteve o TVGoHome, um site que publicava grelhas televisivas fictícias ao estilo da Radio Times. Os programas descritos não existiam e não poderiam ter sido transmitidos; as grelhas misturavam uma sátira mordaz à indústria com invenções surrealistas e espalharam-se através da newsletter de tecnologia Need To Know, numa altura em que um site divertido ainda podia parecer uma descoberta privada. A Fourth Estate publicou uma versão em livro em 2001, e o canal digital E4 adaptou-a a um programa de sketches no mesmo ano. Um dos programas fictícios acompanhava Nathan Barley, um moderno dos media cheio de si. Poucos anos depois, teria uma série própria.

O trabalho em televisão começou ao mesmo tempo que o site. Brooker estreou-se como apresentador ao lado de Gia Milinovich em The Kit, um programa de crítica a gadgets da BBC Knowledge, e surgiu como um especialista encapuçado, «the Pundit», no efémero programa de jogos da Sky Games Republic. Em 2000, tornou-se um dos argumentistas de The 11 O’Clock Show, do Channel 4. Em 2001, integrou a equipa de argumentistas de «Paedogeddon», o episódio especial de Brass Eye sobre o histerismo dos media em torno dos abusos sexuais de crianças, que gerou uma onda de queixas quando foi transmitido. Em 2003, escreveu e narrou «How to Watch Television» para The Art Show, do Channel 4, um filme parcialmente animado ao estilo de uma emissão de serviço público.

Nathan Barley, coescrita com Chris Morris e realizada por Morris, chegou ao Channel 4 a 11 de fevereiro de 2005. Nicholas Burns interpretava a personagem titular, um webmaster, realizador de filmes de guerrilha e autoproclamado «nó mediático auto-orientado», com Julian Barratt no papel do jornalista cansado Dan Ashcroft e um elenco secundário que incluía Richard Ayoade e Ben Whishaw. Teve uma única série de seis episódios e foi recebida com frieza na altura. Com o tempo, tornou-se algo mais próximo de uma profecia: a galeria de figuras dos media do leste de Londres, desesperadas por serem vistas com o gadget e o corte de cabelo certos, parece hoje um guia de campo da cultura dos influencers, anos antes de a palavra se tornar corrente. Brooker também escreveu para Spoons, um programa de sketches do Channel 4 produzido pela Zeppotron, a produtora de que viria a ser diretor criativo.

Dez anos de Screen Burn

O trabalho que tornou Brooker conhecido de um público mais vasto foi uma coluna de jornal. Em 2000, começou a escrever «Screen Burn», uma coluna semanal de crítica televisiva para o The Guide, o suplemento de entretenimento de sábado do The Guardian. Manteve-a até outubro de 2010. A coluna tratava a televisão como um tema que merecia ser devidamente detestado: os reality shows, os canais de notícias em contínuo, os formatos sobre celebridades e os apresentadores eram descritos com um grau de invetiva raro num jornal nacional e, muitas vezes, muito divertido. A partir do final de 2005, escreveu também «Supposing», uma coluna de associação livre na secção G2 do jornal, que no ano seguinte passou a ocupar uma página inteira às segundas-feiras.

A coluna valeu-lhe o prémio de Colunista do Ano nos British Press Awards de 2009 e deu origem a uma série de coletâneas publicadas pela Faber: Screen Burn, em 2004, Dawn of the Dumb, em 2007, The Hell of It All, em 2009, e I Can Make You Hate, em 2012. Antes dessas, publicou dois livros construídos a partir das suas próprias invenções: a edição impressa de TV Go Home, em 2001, e Unnovations, um catálogo de gadgets fictícios, em 2002.

Também lhe trouxe a pior semana dos primeiros anos da sua carreira. A 24 de outubro de 2004, poucos dias antes das eleições presidenciais dos Estados Unidos, uma coluna de «Screen Burn» sobre George W. Bush terminava com uma frase que parecia desejar o assassínio do presidente. O jornal retirou o texto do site e publicou um pedido de desculpas de Brooker. Mais tarde, explicou que tinha reciclado uma piada muito antiga, uma variante de um graffiti que vira pela primeira vez nos anos 1980, e que, em poucos minutos, «metade da internet» acreditava que o jornal estava oficialmente a apelar a um homicídio. A caixa de correio, escreveu, encheu-se de ameaças de morte.

Quando abandonou «Screen Burn», em 2010, a razão que apresentou foi reveladora. Na última coluna, escreveu que se tornara cada vez mais difícil conciliar o papel de crítico mordaz com o trabalho de produtor de televisão, e escrever de forma objetiva sobre pessoas com quem agora trabalhava e convivia. O homem que construíra uma carreira a atacar a televisão passara a fazer parte dela. Grace Dent, colaboradora regular, assumiu a coluna. Brooker continuou a escrever ocasionalmente artigos de opinião para o jornal; o último foi publicado em maio de 2015.

Os anos de Wipe

A versão televisiva da coluna começou em 2006. Charlie Brooker’s Screenwipe estreou-se na BBC Four com uma curta série-piloto em abril desse ano e regressou com novas séries até 2008, incluindo especiais de Natal e balanços do ano. O formato era simples e inovador: Brooker, sentado numa sala pouco iluminada em frente a um televisor, explicava o que estava mal nos programas que passavam nele, com excertos, cenas de transição e longos desabafos precisos. Os episódios abordavam temas como a televisão norte-americana, as notícias, a publicidade e os programas infantis. Para o último, juntou-se durante uma semana ao elenco do programa infantil da ITV Toonattik, como «Angry News Guy». Noutro episódio, entrevistou alguns dos argumentistas de televisão mais conhecidos do Reino Unido sobre o seu ofício. A quinta série, no final de 2008, foi a primeira a ser repetida em horário nobre na BBC Two. O tema musical era «A.M. 180», da banda norte-americana Grandaddy, e Brooker costumava terminar sempre com a mesma frase: «Obrigado por terem visto. Agora vão-se embora.»

Newswipe with Charlie Brooker aplicou o método à cobertura noticiosa a partir de 25 de março de 2009. Analisava a forma como as estações de televisão e os jornais fabricavam o medo e preenchiam o tempo de antena, e ganhou o prémio da Royal Television Society para melhor programa de entretenimento em 2010. Uma segunda série começou em janeiro de 2010. A 29 de setembro de 2009, a BBC Four transmitiu Gameswipe, um especial único sobre videojogos, o tema que os seus orientadores se tinham recusado a aceitar. A partir de 2010, o formato tornou-se uma tradição anual, com os especiais Wipe de fim de ano; o último foi transmitido a 29 de dezembro de 2016. Esse episódio final, Charlie Brooker’s 2016 Wipe, ganhou o BAFTA de melhor programa de comédia e entretenimento de comédia em 2017.

Charlie Brooker’s Weekly Wipe chegou à BBC Two a 31 de janeiro de 2013, combinando os formatos sobre televisão e notícias com um elenco regular e colaboradores convidados. Teve três séries, até 2015, além de um Election Wipe de 60 minutos em maio de 2015. Foi também aí que surgiu a personagem que sobreviveria ao formato: Philomena Cunk, interpretada pela comediante Diane Morgan, uma entrevistadora séria que fazia aos académicos perguntas tão disparatadas que acabavam por roçar a profundidade, num segmento recorrente chamado «Moments of Wonder». A franquia regressou uma última vez a 14 de maio de 2020, com Charlie Brooker’s Antiviral Wipe, um especial de 45 minutos da BBC Two sobre a vida em confinamento, feito com a equipa de uma série de Cunk que fora adiada. Brooker recusou inicialmente a ideia e só aceitou quando percebeu que o formato, que dependia de imagens de arquivo e de poucas pessoas juntas em cena, podia ser produzido segundo as regras da pandemia.

Entre os programas Wipe, tornou-se presença regular nos programas britânicos de debate e entretenimento. Participou em Have I Got News for You, 8 Out of 10 Cats, Never Mind the Buzzcocks, Would I Lie to You? e The Big Fat Quiz of the Year. Apresentou o programa de debate do Channel 4 You Have Been Watching a partir de 2009, apresentou How TV Ruined Your Life na BBC Two no início de 2011 e foi um dos quatro apresentadores — com David Mitchell, Jimmy Carr e Lauren Laverne — da emissão alternativa da noite eleitoral do Channel 4 em maio de 2010. A televisão em direto aterrorizava-o tanto que, mais tarde, brincou dizendo que perdera o controlo da bexiga durante a emissão; ainda assim, os quatro apresentadores regressaram em janeiro de 2011 com o programa semanal de atualidade 10 O’Clock Live. Na BBC Radio 4, apresentou So Wrong It’s Right, um programa de comédia que celebrava o fracasso, ao longo de três séries entre 2010 e 2012.

Os videojogos continuaram no centro de tudo. Em novembro de 2013, o Channel 4 transmitiu How Videogames Changed the World, um longo programa especial em que Brooker fez a contagem decrescente de 25 jogos marcantes, de Pong a Grand Theft Auto, com intervenções de Jonathan Ross, Dara Ó Briain e de criadores como Will Wright e John Romero. Para alguém que abandonara a universidade sem se licenciar por causa de uma dissertação sobre o tema, foi como voltar a entregá-la, desta vez em público e com grande aparato.

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Dead Set e a passagem ao drama

Dead Set
Dead Set (2008)

O seu primeiro drama foi uma série de terror, passada no programa que tinha passado anos a ridicularizar. Dead Set, cinco episódios produzidos pela Zeppotron para a E4, foi transmitida em outubro de 2008, por altura do Halloween. Uma epidemia de zombies assola o Reino Unido na noite de uma expulsão de Big Brother, e os concorrentes, isolados do mundo exterior, são os últimos a saber. Jaime Winstone interpretava uma assistente de produção do programa, e a verdadeira apresentadora de Big Brother, Davina McCall, apareceu como ela própria, o que acrescentou à premissa uma camada extra de credibilidade sinistra. Brooker, fã de terror de longa data, insistiu que «não podia ser descrita como uma comédia» e disse esperar que surpreendesse, divertisse e chocasse as pessoas em igual medida.

E conseguiu. Dead Set foi nomeada para o BAFTA de melhor série dramática e voltou a ser transmitida pelo Channel 4 em janeiro do ano seguinte, a tempo de Celebrity Big Brother. Mais importante, mostrou que as ideias de Brooker conseguiam prender o público sem que um narrador tivesse de explicar a piada. A sátira estava na situação: a atenção de uma nação tão completamente fixada num reality show que o fim do mundo se torna ruído de fundo.

Black Mirror no Channel 4

Black Mirror
Black Mirror (2011)

A ideia de uma série antológica surgiu enquanto trabalhava em Newswipe e pensava em The Twilight Zone. Brooker reparou que Rod Serling conseguira fazer passar argumentos sobre questões da atualidade pelos censores da época, colocando-os em cenários fictícios, e percebeu que o mesmo truque podia resultar com a tecnologia. Desenvolveu a série com Annabel Jones, a produtora com quem trabalhava desde Screenwipe, e a primeira proposta que apresentaram ao departamento de comédia do Channel 4 previa oito episódios de meia hora, escritos por diferentes argumentistas. Acabaram por ser três filmes de uma hora. O título, inspirado em parte numa canção dos Arcade Fire, designava algo que todos tinham. «O “espelho negro” do título é aquele que se encontra em todas as paredes, em todas as secretárias, na palma de todas as mãos», escreveu no The Guardian: «o ecrã frio e brilhante de um televisor, de um monitor, de um smartphone.»

O primeiro episódio, transmitido a 4 de dezembro de 2011, foi «The National Anthem». Nele, o primeiro-ministro britânico, interpretado por Rory Kinnear, é informado de que uma princesa raptada será morta a menos que tenha relações sexuais com um porco em direto na televisão. O episódio gerou 145 queixas junto do regulador Ofcom e deixou claro que a série era algo bem diferente de ficção científica respeitável. «Fifteen Million Merits», coescrito com a mulher de Brooker, Konnie Huq, tinha Daniel Kaluuya no papel de um homem num mundo onde as pessoas pedalam em bicicletas estáticas para ganhar dinheiro e a única saída é um concurso de talentos. «The Entire History of You», escrito por Jesse Armstrong, imaginava implantes de memória que permitiam a um marido ciumento rever todos os momentos do seu casamento. Em 2012, a série ganhou o Emmy Internacional para melhor telefilme ou minissérie.

Uma segunda série estreou em fevereiro de 2013, com Hayley Atwell a viver o luto através de uma cópia artificial do companheiro falecido em «Be Right Back» e um urso animado a representar o Parlamento em «The Waldo Moment». Brooker disse que escrevera deliberadamente protagonistas femininas para os episódios iniciais, depois de perceber que todas as personagens principais da primeira série eram homens. Seguiu-se o especial «White Christmas», transmitido a 16 de dezembro de 2014, com Jon Hamm e Rafe Spall, e um longo e frustrante silêncio. A série continuava a ser financiada pelo orçamento de comédia e era dispendiosa: numa antologia, não há cenários nem elenco recorrentes que permitam repartir os custos. Os novos responsáveis pediram sinopses detalhadas antes de se comprometerem, e algumas das ideias de Brooker foram devolvidas com a observação de que «não eram muito Black Mirror».

A Touch of Cloth

A Touch of Cloth
A Touch of Cloth (2012)

Enquanto Black Mirror aguardava, Brooker regressou à comédia pura. A Touch of Cloth, que escreveu com Daniel Maier para a Sky1, estreou a 26 de agosto de 2012. Era uma paródia das séries policiais britânicas, um género de detetives soturnos, chuva e tragédias pessoais. John Hannah interpretava o inspetor-chefe Jack Cloth e Suranne Jones a colega Anne Oldman; ambos foram escolhidos, em parte, por terem protagonizado verdadeiros dramas policiais. O título juntava uma alusão a A Touch of Frost a uma expressão grosseira britânica. Seguiram-se mais duas séries, em 2013 e 2014, esta última com Karen Gillan a juntar-se ao elenco. A série foi produzida ao mesmo tempo que a primeira temporada de Black Mirror, o que diz algo sobre a forma de trabalhar de Brooker: nos mesmos meses, o mesmo argumentista estava a construir um dos dramas mais sombrios da televisão e uma paródia com piadas a cada segundo.

A paródia viria a ter uma longa vida. Grande parte da equipa de argumentistas, incluindo Maier, Ben Caudell, Jason Hazeley e Joel Morris, está por detrás de Blackmere, a paródia policial que a Netflix prevê lançar em 2027.

A mudança para a Netflix

Os anos no Channel 4 terminaram com uma guerra de propostas. A Netflix começara a transmitir as duas primeiras séries nos Estados Unidos em dezembro de 2014, dando à série um público novo e numeroso, e canais norte-americanos como a AMC, a Syfy e a HBO mostraram interesse. Brooker e Jones disseram que gostariam que o Channel 4 continuasse como parceiro em pé de igualdade, mas o canal ofereceu apenas uma renovação curta, em condições que lhes inspiravam desconfiança. Em setembro de 2015, a Netflix encomendou doze episódios. Em março de 2016, também superou a proposta do Channel 4 pelos direitos no Reino Unido, alegadamente com uma oferta de cerca de 40 milhões de dólares. Foi a primeira vez que um serviço de streaming tirou uma série a uma estação que a queria manter, e o caso tornou-se uma referência nos debates sobre o impacto do streaming na televisão britânica.

Os primeiros episódios da Netflix, lançados em todo o mundo a 21 de outubro de 2016, alargaram o alcance da série. Brooker escreveu primeiro «San Junipero», no que descreveu como uma «provocação deliberada» aos fãs que receavam que a mudança americanizasse a série: uma história de amor entre duas mulheres, interpretadas por Gugu Mbatha-Raw e Mackenzie Davis, numa cidade costeira que acaba por ser uma vida depois da morte digital. Tem um final feliz. «Nosedive», com Bryce Dallas Howard no papel de uma mulher cuja vida é governada por uma classificação social de cinco estrelas, partiu de uma história de Brooker adaptada por Michael Schur e Rashida Jones. A quarta série, lançada a 29 de dezembro de 2017, começou com «USS Callister», uma paródia de ópera espacial coescrita com William Bridges, em que um programador vítima de bullying, interpretado por Jesse Plemons, prende cópias digitais dos colegas num jogo ao estilo de Star Trek. «Hang the DJ», da mesma série, tinha Georgina Campbell e Joe Cole no papel de um casal formado por um algoritmo.

Seguiram-se os prémios. «San Junipero» ganhou o Primetime Emmy de melhor telefilme em 2017, e Brooker recebeu o Emmy de melhor argumento para minissérie, telefilme ou especial dramático. «USS Callister» repetiu os dois prémios em 2018, com o galardão de argumento partilhado com Bridges. Em 2019, Black Mirror: Bandersnatch garantiu à série a terceira vitória consecutiva na categoria de telefilme. Lançado a 28 de dezembro de 2018, Bandersnatch era um filme interativo passado em 1984, no qual o espectador escolhia o que faria a seguir um jovem programador de videojogos, interpretado por Fionn Whitehead, e que tinha cinco desfechos principais. O formato exigia muito do ponto de vista técnico e atrasou a quinta série; em maio de 2025, a Netflix retirou o filme da plataforma porque o suporte a títulos interativos estava a atrasar outros trabalhos técnicos. O entusiasmo dos votantes dos Emmy também alterou as regras, num contexto em que os críticos defendiam que os episódios de uma série não deviam competir como telefilmes.

Onde os críticos discordam

Brooker nunca teve uma relação fácil com o consenso, e a opinião geral sobre Black Mirror nem sempre lhe foi favorável. A quinta série, de três episódios, lançada a 5 de junho de 2019, foi recebida com menos entusiasmo do que as anteriores; um crítico da BBC considerou que havia «um episódio bom e dois medianos a maus». As críticas recorrentes são familiares a quem acompanha a série: a sua moral pode parecer formulaica, demasiados episódios giram em torno do mesmo artifício — uma mente humana copiada para software — e as reviravoltas tornaram-se previsíveis assim que o público aprendeu a esperá-las. Brooker quase concordou. Quando começou a sexta série, disse que queria impedir que o programa se tornasse «a série sobre a consciência carregada para um disco minúsculo» e propôs-se subverter deliberadamente as suas próprias ideias fundamentais sobre aquilo que a série era.

A maior contradição é comercial. Uma série construída em torno da desconfiança das empresas tecnológicas é feita para uma das maiores de todas, e Brooker integrou esse incómodo no próprio trabalho. O episódio de 2023 «Joan Is Awful» acompanha uma mulher, interpretada por Annie Murphy, que descobre que um serviço de streaming chamado Streamberry — uma paródia quase exata da interface e do som da Netflix — transformou a sua vida num drama protagonizado por Salma Hayek, usando os direitos que cedeu ao aceitar os termos e condições. A Netflix lançou-o na mesma. Mais tarde, Brooker sugeriu que os espectadores podiam encarar todos os episódios como produções da Streamberry. Será um satirista a morder a mão que o alimenta ou uma plataforma a absorver o seu crítico? É uma pergunta que o episódio deixa ao espectador.

Nem todos os projetos resultaram. Death to 2020, um falso documentário da Netflix lançado a 27 de dezembro de 2020, com Hugh Grant, Samuel L. Jackson e Lisa Kudrow entre os atores, adaptava o balanço anual de Wipe a um público internacional e foi, na sua maioria, arrasado; os críticos consideraram as piadas óbvias, embora alguns desempenhos tenham sido elogiados. A sequela, Death to 2021, avançou com Brooker num papel mais reduzido. O formato que funcionara para um público da BBC familiarizado com a sua voz não resistiu a ser distribuído por um elenco de personagens norte-americanas.

Death to 2020
Death to 2020 (2020)

Broke and Bones, Cunk e a sexta série

A empresa por detrás da série mudou duas vezes em poucos anos. A primeira série foi produzida pela Zeppotron para o grupo neerlandês Endemol; mais tarde, Brooker e Jones dirigiram a House of Tomorrow, uma divisão da Endemol Shine. Saíram por volta do início de 2020, deixando os direitos de Black Mirror na Endemol, e fundaram a Broke and Bones. Em julho de 2020, a Netflix acordou um investimento invulgar na nova empresa, o primeiro do género no Reino Unido, que lhe garantia exclusividade sobre os conteúdos produzidos e a opção de a comprar na totalidade ao longo de cinco anos. Ao abrigo desse acordo, a Broke and Bones produziu Death to 2020, o drama de Jack Thorne Toxic Town, do qual Brooker foi produtor executivo, e os especiais de Cunk. Em 2022, Brooker foi também creditado como criador de Cat Burglar, uma curta-metragem de animação interativa para a Netflix.

Philomena Cunk já tinha passado de Weekly Wipe para os seus próprios falsos documentários, começando com Cunk on Shakespeare, em 2016, e Cunk on Britain, em 2018. Cunk on Earth, uma história da civilização humana em cinco episódios, estreou na BBC Two em setembro de 2022 e, mais tarde, na Netflix, transformando uma personagem de culto da BBC numa figura internacional. O método era o mesmo dos programas Wipe, mas ao contrário: em vez de Brooker explicar a televisão ao público, a Cunk de Morgan não conseguia compreender a história perante verdadeiros especialistas, que muitas vezes tinham dificuldade em manter a compostura. Cunk on Life, um especial de uma hora sobre o sentido da existência, escrito por Brooker com Morgan, foi transmitido pela BBC em dezembro de 2024 e chegou à Netflix a 2 de janeiro de 2025; o especial foi nomeado para um Emmy pelo argumento.

A sexta série de Black Mirror estreou a 15 de junho de 2023 com cinco episódios e uma mudança deliberada de rumo. «Demon 79», coescrito com Bisha K. Ali, era uma história de terror passada em 1979, sem a tecnologia no centro. «Mazey Day» envolvia um lobisomem. «Beyond the Sea», com Aaron Paul e Josh Hartnett, passava-se numa versão alternativa de 1969. A Netflix anunciou que a série registara 60 milhões de horas de visualização na semana de estreia, mas as críticas dividiram-se. Nesse mesmo mês, Brooker contou à Empire que pedira ao ChatGPT para escrever um episódio de Black Mirror. À primeira vista, o resultado parecia plausível; à segunda, era «uma porcaria», disse, porque tudo o que a ferramenta fizera fora consultar as sinopses de episódios existentes e misturá-las. É difícil imaginar uma história mais condizente com a série.

Into Infinity e o fim de um acordo

A sétima série, lançada a 10 de abril de 2025, foi a primeira a incluir uma sequela direta. «USS Callister: Into Infinity», escrito por Brooker com Bisha K. Ali, William Bridges e Bekka Bowling, trouxe de volta a personagem de Cristin Milioti e a tripulação de cópias digitais, agora num universo de jogo cheio de milhões de jogadores hostis. «Common People», com Rashida Jones e Chris O’Dowd, acompanhava um casal cuja subscrição de um implante cerebral é discretamente reduzida, a menos que paguem mais — uma ideia sobre a economia das subscrições que não precisava de qualquer exagero. Os críticos consideraram a série mais calorosa e consistente do que as duas anteriores, e esta recebeu dez nomeações para os Emmy em 2025, mais do que qualquer série anterior, incluindo uma nomeação para o argumento de Brooker e Ali por «Common People».

Poucos meses depois, o acordo de cinco anos com a Netflix chegou ao fim. Os registos da empresa mostram que Brooker e Jones se demitiram dos cargos de administradores da Broke and Bones a 3 de julho de 2025, deixando a empresa nas mãos da Netflix e ficando livres para trabalhar com outras entidades. Os direitos de Black Mirror permaneceram na Netflix, e ambas as partes disseram querer mais episódios. Em janeiro de 2026, a Netflix renovou a série para uma oitava temporada. Brooker disse que Black Mirror regressaria «mais Black Mirror do que nunca», mesmo a tempo de a realidade a alcançar, e que a parte do seu cérebro responsável pela série já estava «ativada» e «a trabalhar a todo o gás». A produção começou no verão de 2026 e ainda não foi anunciada uma data de estreia.

Konnie Huq e o Brooker reservado

Brooker conheceu a apresentadora de televisão Konnie Huq, a mulher que durante mais tempo apresentou o programa infantil da BBC Blue Peter, enquanto filmava um episódio de Screenwipe em 2008. Ficaram noivos ao fim de nove meses e casaram a 26 de julho de 2010 na Little White Wedding Chapel, em Las Vegas. Têm dois filhos. Huq coescreveu com ele «Fifteen Million Merits» e, desde então, publicou livros infantis, começando com Cookie and the Most Annoying Boy in the World, em 2019. De resto, Brooker é reservado quanto à vida familiar, e a sua persona pública, sombria e autodepreciativa, é algo que interpreta, não um retrato completo de si próprio. Em janeiro de 2018, foi convidado do programa Desert Island Discs, da BBC Radio 4.

Para lá da televisão, continua a ser muito solicitado como orador sobre o impacto da tecnologia nas pessoas. Em 2026, foi contratado como orador principal no British Legal Technology Forum, perante uma plateia de advogados e especialistas em tecnologia convidados a ouvir o homem que não para de imaginar como as ferramentas que usam podem correr mal.

Blackmere, Cunk on Cinema e o que se segue

O projeto que reúne as duas metades da sua carreira é Blackmere. A Netflix anunciou a série, ainda sem título, a 9 de setembro de 2025, e as filmagens decorreram em Londres nesse mês e em Manchester em outubro. A 24 de setembro de 2026, num evento da Netflix UK em Londres, a plataforma revelou o título e as primeiras imagens. Paddy Considine interpreta o detetive John Blackmere, num elenco que inclui Georgina Campbell, Lena Headey e Rory Kinnear; Kinnear foi o primeiro-ministro no episódio inaugural de Black Mirror e Campbell protagonizou «Hang the DJ». Al Campbell realiza, e a equipa de argumentistas reúne grande parte do grupo de A Touch of Cloth, juntamente com Emer Kenny. A sinopse oficial parece uma paródia de todos os dramas policiais de prestígio: um detetive atormentado deixa a cidade setentrional e encharcada pela chuva de Bleakford e parte para Londres para vingar a morte da companheira e apanhar um assassino em série ritualista «antes que as vítimas se esgotem». Termina com um aviso: «Contém sangue e cenhos franzidos.» Uma das primeiras imagens mostra Considine atrás de uma fita policial estampada com um palavrão. Quando a série foi anunciada pela primeira vez, Brooker forneceu uma citação para o comunicado de imprensa que troçava das citações de comunicados de imprensa, dizendo que sonhava escrever uma «desde que era um feto». A série deverá estrear no início de 2027.

Philomena Cunk também está de regresso. A 14 de setembro de 2026, a BBC e a Netflix anunciaram Cunk on Cinema, uma série de três episódios escrita por Brooker com Diane Morgan e uma equipa de colaboradores habituais, novamente realizada por Al Campbell. A série acompanha Cunk pela história do cinema, desde a invenção da câmara até aos efeitos gerados por computador e à inteligência artificial, com entrevistas a Michael Bay, Benedict Cumberbatch e ao crítico Mark Kermode, entre outros. Será transmitida na BBC Two e no iPlayer no Reino Unido e na Netflix nos restantes territórios; ainda não foi anunciada uma data.

Entre estas duas comédias fica a oitava série de Black Mirror, o programa que o tornou famoso por levar as piadas a sério. Durante grande parte da sua carreira, o trabalho de Brooker foi entendido como um aviso. Talvez seja mais útil a interpretação que ele próprio continua a sugerir: os pesadelos e as punchlines vêm do mesmo sítio, e a distância entre eles é muitas vezes apenas um passo, ligeiramente plausível demais. Com uma paródia policial, um falso documentário sobre cinema e uma nova série de distopias em produção ao mesmo tempo, está prestes a pôr essa ideia à prova em três frentes no mesmo ano.

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