Críticas

The Batman trata finalmente o Cruzado de Capa como detetive — e o noir resulta, na maior parte

Martha O'Hara
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Segundo a Punch Drunk Critics, nesta Gotham os pequenos criminosos dispersam mal o sinal do Bat-Sinal aparece no céu, o que nos diz que o Batman é temido muito antes de ser visto. The Batman está mais próximo de um mistério policial do que de um filme de super-heróis: um thriller criminal passado numa cidade dilacerada pela corrupção e pelos privilégios. Reeves, que antes realizou Dawn of the Planet of the Apes e War for the Planet of the Apes, apresenta-nos um herói no segundo ano da sua luta contra o crime. Continua a ser mais mito do que homem: uma presença física temida pelo submundo e encarada com desconfiança pela maioria dos agentes da polícia.

A Punch Drunk Critics também destaca que o filme nos poupa a mais uma revisitação do assassínio dos pais de Bruce Wayne, uma cena a que outras versões nos obrigaram a assistir repetidamente. Reeves parte do que essa perda deixou para trás: o sonho de Thomas Wayne de se candidatar à presidência da Câmara e o ambicioso projeto Wayne Renewal ficaram reduzidos a pó. A Film Colossus vê na renovação o grande tema do filme, e o nome daquele projeto falhado torna difícil discordar. A mesma análise observa que, no início, Bruce é movido pela vingança quando decide tornar-se Batman, o que dá à história um caminho a percorrer. Quanto à polícia, diz a Punch Drunk Critics, só o tenente James Gordon, interpretado por Jeffrey Wright, parece confiar na figura mascarada. A The Holy Goof aprecia o facto de Batman trabalhar com a polícia em vez de contra ela, mesmo quando os agentes se ressentem dessa colaboração.

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Robert Pattinson carrega o filme às costas. O The Guardian vê nele uma estrela de rock reclusa, elegantemente decadente, esguia e dandisca num fato preto, com o cabelo escuro a cair-lhe sobre o rosto. De fato vestido, o mesmo homem triplica magicamente de volume e todo o seu ser se transforma numa massa de impassibilidade pétrea, convertida em arma. A interpretação vive da distância entre estas duas imagens: um homem que mal parece estar presente sem o fato e uma figura que preenche o enquadramento assim que enverga o capuz. A Punch Drunk Critics vai mais longe e considera verdadeiramente extraordinária a sua interpretação do maior detetive de Gotham. O crítico admite que, a meio do filme, disse a um amigo que era «mesmo incrível», ao que este respondeu que ainda faltavam 90 minutos. Diz que não tinha sentido o peso dessa duração. O The Guardian, pelo contrário, considera o filme demasiado longo, e estas duas opiniões delimitam a divisão de perspetivas em torno da obra.

É com o Riddler que Reeves revela audácia. O assassino de Paul Dano não tem nada que ver com o fato verde néon e o cabelo cor de laranja de Jim Carrey. Como observa a Punch Drunk Critics, não há chapéu ridículo nem lengalengas infantis e, numa das primeiras cenas, ele esconde-se nas sombras e espanca brutalmente o presidente da Câmara até à morte. A crítica compara-o a um assassino em série saído de um filme de David Fincher, enquanto o The Guardian evoca Saw e acrescenta que, nas suas muitas aparições nas redes sociais, usa uma máscara de borracha do tipo «gimp». O seu objetivo é eliminar, um a um, os elementos corruptos da elite de Gotham, entre eles o presidente da Câmara, Don Mitchell, e o procurador do distrito Gil Colson, interpretado por Peter Sarsgaard. A sua ira dirige-se às classes políticas que se congratulam por terem erradicado o traficante Sal Maroni, enquanto uma nova droga, chamada drops, se espalha pela cidade e as autoridades fazem vista grossa. Essa queixa dá um alvo aos assassínios. O Riddler deixa pistas destinadas apenas a Batman, e a Punch Drunk Critics descreve o resultado como um duelo intelectual em que o assassino está sempre alguns passos à frente.

É também no duelo que o filme vacila. O The Guardian não tem rodeios: os enigmas do Riddler não são particularmente engenhosos nem sequer importantes para a história. Durante algum tempo, o filme promete um mistério em torno da corrupção municipal e uma revelação com uma conclusão satisfatória, mas a mesma crítica considera que o que se segue é um desfecho bastante frouxo, que se esquiva, algo envergonhado, à crise existencial do herói. É desse terceiro ato cansativo que o The Guardian se queixa, e o tom, a duração e a reta final foram precisamente os aspetos que suscitaram críticas quando o filme estreou. A crítica é justa. Um filme que dedica tanto tempo ao trabalho moroso de investigação deve-nos uma resposta final com algum peso; os enigmas, que deviam ser o motor dessa resposta, acabam por ser mero adorno.

O trabalho de produção é outra conversa. O The Guardian descreve o filme como extraordinariamente concebido e visualmente espetacular, com grandes sequências de ação e impactos violentos, que fazem tremer o esterno e irrompem da escuridão. Greig Fraser filmou-o com a tecnologia de produção virtual StageCraft da Industrial Light & Magic, e o filme conta com mais de 1500 planos de efeitos visuais. Michael Giacchino compôs a banda sonora, que os críticos destacaram, juntamente com a cinematografia. O The Guardian atribui a Christopher Nolan a criação daquela Gotham brutal e sombria que torna possível imaginar Batman no ecrã, e Reeves desenvolve esse mundo em vez de o repetir. Na sua versão, escreve a Punch Drunk Critics, o desespero entranha-se nos cidadãos da cidade e até os seus heróis aceitam que aquilo que fazem é inútil. Batman pode lutar pelos habitantes de Gotham, mas não tem ilusões quanto às suas hipóteses.

O elenco secundário também dá o seu contributo. O The Guardian destaca as interpretações discretamente sólidas de Wright e de John Turturro, que dá vida ao chefe do crime Carmine Falcone, e diz que o superpoder de Zoë Kravitz é o carisma. Selina Kyle é cúmplice de Bruce no crime, e a The Holy Goof observa que ela é tão imperfeita como ele, impedindo que a dupla pareça um herói impecável acompanhado pelo seu ajudante. Colin Farrell está, nas palavras da Punch Drunk Critics, irreconhecível como o Penguin, um dos gangsters que tomaram conta da cidade. A The Holy Goof vai mais longe e considera Andy Serkis o melhor Alfred, apesar das muitas grandes interpretações anteriores, com uma menção a Michael Caine. Não o colocaria tão alto, mas um novo Alfred que sucede a Caine e ainda assim consegue dar nas vistas está a cumprir a sua função.

A história da produção é visível no filme acabado. Um filme de Batman foi anunciado em outubro de 2014, com Ben Affleck no papel principal; o ator abandonou o projeto em janeiro de 2017. Reeves assumiu a realização no mês seguinte, eliminou as ligações ao DC Extended Universe e escolheu um Batman mais jovem, numa fase inicial da sua carreira de vigilante. Inspirou-se nos filmes de Alfred Hitchcock e na era da Nova Hollywood, bem como em bandas desenhadas como Year One, The Long Halloween e Ego. As filmagens decorreram entre janeiro de 2020 e março de 2021, com vários meses perdidos devido à pandemia, e tiveram lugar no Reino Unido, em Inglaterra e na Escócia, bem como nos estúdios da Warner Bros. em Leavesden. A preferência pelo trabalho de detetive em vez dos espetáculos pirotécnicos e uma história que relaciona a corrupção de Gotham com a própria família de Bruce decorrem diretamente dessa premissa.

O público acorreu em massa. O filme arrecadou mais de 772 milhões de dólares em todo o mundo, perante um orçamento de 185 a 200 milhões, tornando-se a estreia da Warner Bros. com maior receita durante a pandemia. É também um dos filmes de super-heróis mais longos de sempre, e a duração foi um dos aspetos apontados pelos críticos. Uma sequela, The Batman: Part II, tem estreia marcada para 18 de fevereiro de 2028, e uma série derivada sobre o Penguin, protagonizada por Farrell, chegou à HBO no final de 2024.

As fragilidades são concretas: a duração, os enigmas pouco relevantes para o enredo e um final que facilita demasiado a vida ao herói. São problemas reais, que impedem o filme de chegar ao patamar mais alto. Em contrapartida, temos uma história criminal contada como tal, com uma vítima, um motivo e uma cidade cujas instituições também são culpadas. A IGN Latinoamérica defende que está na altura de deixar de tratar The Dark Knight como a única referência para os filmes de Batman, porque essa fixação fecha a porta a outras formas de explorar o género; o filme de Reeves dá força a esse argumento. Em vez de competir com Nolan no seu próprio terreno, leva a personagem até ao recanto mais sombrio e silencioso de Gotham descrito pela Punch Drunk Critics — e é aí que o filme melhor resulta.

Elenco

Fotografias: The Movie Database (TMDB)

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